13.7.07

Um homem na cidade



Na minha rua vive um homem com quem me cruzo frequentemente. É alto e muito magro. “Espigado”, acho que lhe assenta bem. É surdo-mudo e está a ficar cego. Anda sempre com uma bengala, acompanhado por um cão e uma cadelita rafeiros. Às vezes, quando estou a chegar a casa, passo pelo clube recreativo, e lá está ele sentado, a mimar os cães. Vejo que é acarinhado pelas pessoas, mas a relação dele com o mundo passa sobretudo pelos animais. Estes tomam uma postura de defesa quando passeiam com ele. Não são agressivos, antes correm freneticamente em torno dos transeuntes que se aproximam, cheirando, inspeccionando, tentando perceber as suas intenções. Sei que já teve quem o conduzisse pela mão. Com a mão no ombro, mais propriamente. Agora só tem os cães. Não sei se é boa pessoa ou má pessoa. Tem um ar seco e ignoto, como um ponto de exclamação sem frase. Ontem à noite, na plataforma do metro perto da minha rua, vi-o descer as escadas com a ajuda providencial de um senhor simpático, na estação vazia. Não trazia os canitos a saltitar-lhe aos pés, mas vinha muito agarrado a um cachorrinho. Não se percebia quem estava mais assustado, se ele, se o cachorro. Mas a atitude de ternura e de protecção daquele homem sozinho e desprotegido encheu-me de esperança. Por ele. E por mim. Naqueles percursos a horas tardias em que o vazio me assola não me vou esquecer de que pode haver sempre amor para dar e pode haver sempre amor para receber. Tem de se procurar. Tem de se saber dar. Tem de se saber receber.

(Foto de Ian Sanderson)

1 comentário:

M. disse...

Retiro o disparatado, salmonete meu... por agora, pelo menos:)...

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