26.12.07

A new Day has come



Ninguém sabe verdadeiramente quem é Daniel Day-Lewis nem o que o faz correr. Felizmente. É o melhor actor de cinema vivo e basta. Se vive de rendas, se é poupado ou sapateiro quando jejua dos sets, indiferente. Importa apenas que se ausente tanto, o que é compreensível para quem encarna as personagens até ao limite da loucura. Lê poucos guiões, não gosta de se promover e só regressa quando o instinto o “obriga”, como o próprio declara em entrevistas raras. É esta a natureza animal, com o seu quê de irracional, do trabalho deste actor. Em tempos convenceu-se de que o seu falecido pai o assombrava durante as representações de Hamlet, acabando por lhe ser diagnosticado um esgotamento. Os colegas de elenco de “O Meu Pé Esquerdo” consideravam-no louco por se manter in character durante toda a duração da rodagem. Genial, mas louco. Antes dos prémios e do reconhecimento universal, porém, “A Minha Bela Lavandaria” já o havia revelado a um pequeno público que reagiu proporcionalmente ao seu talento e à sua presença. Neste país aldeão, onde “A Lei do Desejo” e “O Império dos Sentidos” nos revelavam que havia vida para além - ou aquém - do hábito do Arcebispo de Braga e de que as bolinhas brancas da TV salvariam o clero da ignorância, o filme de Stephen Frears infiltrou-se quase subterraneamente. Enquanto a intelligentsia conservadora (havia outra?), a reboque do pai e do filho, discutia se deveria haver mais ou menos espírito no santo, as cenas de Daniel Day-Lewis com Gordon Wanecke estilhaçavam os paradigmas vigentes da homossexualidade, elevados a um patamar de intensidade, crueza e verdade até então inéditos. A entrega sem compromissos de Day-Lewis muito contribuiu para fazer luz nalguns espíritos tresmalhados, muito mas muito tempo antes de comungarmos de certos hinos à tolerância e ao progresso social (Brokeback Mountain my ass, passe a expressão). Seja como for, My Beautiful Laundrette não era um hino a coisa nenhuma, era um retrato cáustico, atípico e relativamente marginal de ‘outros’ conservadorismos, impostos com mão de ferro. Um projecto à medida de Daniel Day-Lewis, que desde então não tem feito outra coisa – sapatos à parte – senão espantar o mundo com o seu talento. Cinco anos depois de “Gangs de Nova Iorque” e três passados sobre uma colaboração com a mulher, Rebecca Miller, “A Balada de Jack & Rose”, Paul Thomas Anderson convenceu o actor a sair do exílio semi-permanente para interpretar uma personagem escrita expressamente para ele. Aos vossos lugares, minhas senhoras e meus senhores, porque There Will Be Blood.

3 comentários:

M. disse...

My Beautiful Laundrette... um filme para a vida;)

João disse...

Vê-se mesmo que nunca trabalhaste numa. Ah!

M. disse...

Pois não... mas devia... passam-se coisas muito interessantes, afinal, nas lavandarias, ah!

Arquivo do blogue