4.9.07

A pátria saudosa e o rissol de Maria



Quando perguntaram à emigrante Maria de Medeiros, numa entrevista entretanto amplamente citada, do que sentia mais saudades quando pensava em Portugal, a artista e agora chanteuse respondeu: "Dos rissóis de camarão". Na altura ocorreram-me inúmeras possibilidades interpretativas, carregadas de significado político, poético e até cabalístico. Acabei por me ater às hipóteses de que a Maria ou gosta mesmo muito do seu rissolito ou então estava simplesmente a ironizar. O que até nem é mal visto, porque se eu disser que senti saudades da minha Ucal fresquinha, da broa de milho torrada, de queijo flamengo e da boa e velha bica até pode parecer uma maneira trivial de subestimar as riquezas pátrias, mas na realidade é uma profunda demonstração de apreço pelos nossos hábitos, rotinas e singelezas. Petits riens, como diriam as manas de Medeiros. É que Portugal merece a ironia. Não só porque nos obriga a ela, mas também porque a estima, mesmo que não lhe agrade. A propósito, a propos, em língua mais civilizada, compreendo que la Maria tenha optado pelo rissol, à imagem do qual o seu próprio talento pode ser definido: um pastelinho ligeiramente croustillant, de formato previsível, com uma massinha leve envolvendo um lampejo de sabor - aquele fugidio camarão que o recheia. Uma grande virtude lhe encontro, porém: não emigrou para a Grécia nem na Grécia se fazem rissóis de camarão.

3 comentários:

M. disse...

Quem diria... um verdadeiro coração de manteiga:)... ou então é mesmo verdade que o fado do emigrante nos corre nas veias...

João disse...

Como vês, Muf, nos posts nem tudo se perde e alguma coisa se recria. Talvez haja um faduncho a correr-me nas veias, uma coisa assim mais pós-moderna, com laivos de electrónica e a cabeça da Mariza a servir de tambor. Coração de manteiga, hein? Dream on, babe.

M. disse...

Salmonetezinho, eu sei bem o que digo, there's more to you than meets the eye:)...

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