24.5.07

A definição de Cole


Sempre gostei muito de jazz vocal, em particular cantado por senhoras (abro algumas excepções no universo masculino, mas Kevin Mahogany é rei). Não de forma dedicada e entendida, mas sempre com um ouvido desperto. Por exemplo, não morro de amores por Madeleine Peyroux nem por Patricia Barber e já não posso ouvir Jane Monheit (para cuja introdução no mercado português contribuí, num âmbito profissional, obviamente). Seria capaz de, timidamente, recomendar Rosemary Clooney, entre os clássicos, e Dee Dee Bridgewater, Vanessa Rubin e Luciana Souza, entre as mais recentes. Decerto haverá dezenas de outros nomes a aconselhar, mas não possuo conhecimentos para tal. No entanto, um dos primeiros contactos com o género, fora dos cânones, foi feito através dos álbuns de Holly Cole. Não me lembro bem em que circunstâncias, mas penso que o primeiro me terá sido encaminhado por um rapaz prestável e entusiasta, que trabalhava numa loja de discos no centro comercial Golden, em Coimbra. Não me recordo do nome dele, mas foi quem me deu a conhecer Adriana Calcanhoto, quando só ainda tinha um “t” e havia editado o brilhante Enguiço.
Há muitos anos, então (vou perdendo voluntariamente a conta), batia-me forte a frieza desesperada de “Je Ne T’Aime Pas”, de Kurt Weill e Maurice Magre, a melancolia de “Tennessee Waltz”, “Cry (If You Want To) e “Don’t Let the Teardrops Rust Your Shining Heart” (que era muito difícil de reiventar, depois de cantada por Tracey Thorn). “Get Out of Town” e “Don’t Smoke in Bed” eram a definição de cool, que despertavam aquele sentimento de desafio que eu só assumia entre as paredes do quarto. Curiosamente também o ouvi muito entre as paredes do CITAC, no rádio leitor de cassetes lá do burgo, quase sempre sozinho, a horas mortas. Não tinha leitor de CDs em casa, de forma que diligentemente gravava o disco recém-adquirido em casa de alguém mais burguesito e preparava-me para uma verdadeira experiência religiosa. Isto depois da extravagância de o ter efectivamente adquirido. Aquelas músicas eram-me familiares, mas na voz de Holly Cole eram só dela, mesmo só dela, o que raramente voltei a sentir. Don’t Smoke In Bed, do então Holly Cole Trio era um companheiro recorrente e muito inspirador. Dois anos mais tarde, ao ouvir a versão obsidiante de “Temptation”, de Tom Waits, no álbum do mesmo nome, recuperei o gosto e a admiração por Cole, que havia entretanto esmorecido graças ao terceiro disco, de 1991 (anterior a Smoke mas descoberto depois), Blame it On My Youth, que me pareceu carecer ainda de uma identidade tão vincada como a que veio a revelar posteriormente. Voltei a ligar-me a ela de forma irregular em Romantically Helpless (mais uma versão “só sua” de “Don’t Fence Me In”, de Cole Porter), mas desliguei-me a partir de Baby It’s Cold Outside, de 2001. Muitas solicitações, distracções, coisas novas. La vie, quoi.
Por uma vez, todo este sururu crítico à volta do novo álbum homónimo (também conhecido como This House Is Haunted) faz justiça retroactiva que, quanto a mim, deveria ser um bocadinho mais declarada. Talvez tenha prestado pouca atenção, mas sentia que esta canadiana que desenhava e representava as canções de uma forma verdadeiramente original era um tesouro bem escondido. Talvez não fosse, mas não acredito que tenha sido apreciada condignamente durante muitos anos. Bem hajam então os que contribuem agora para a divulgação do trabalho de Holly Cole e fazem renascer em fãs adormecidos como eu a vontade de a reencontrar.

2 comentários:

M. disse...

Não vou comentar a tua escrita, sabes bem o que penso. Mas posso comentar o teu ouvido? Se calhar, na verdade, não posso desligar as 2 coisas, a escrita e o ouvido... e é um belo ouvido, o que tu tens, e pronto, fiquemos por aqui. Não é muito elaborado, como comentário, pois não:)? Quanto ao resto... a "forma" não é nada entendida, nem muito dedicada, mas a curiosidade é muita, em certas coisas. Como a tua, certo? Sabes que mais? Temos que fazer uma troca de discos...

João disse...

Hum... É muito elaborado como comentário! :) Obrigado. Mas sou um mero diletante. You spoil me.
Sim, temos que fazer essas trocas ;)

Arquivo do blogue