4.12.06

Olha que simpáticos




“Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” (Little Miss Sunshine) é um dos poucos filmes encantadores de 2006. O facto de ter sido um sleeper – êxito surpresa – nas bilheteiras norte-americanas ajudou-o a alcançar uma audiência mundial e a aceitação crítica projectou-o para a ribalta dos prémios. Estamos em período de angariação de votos e bem sei que celebrações como os Globos de Ouro e os Oscars são autênticas feiras, e não apenas das vaidades... Porém, foi com alguma surpresa que descobri, algures na net, este simpático presente que a Fox Searchlight está a enviar aos membros da Academia. Poderá ter o seu charme, mas, na minha opinião, Little Miss Sunshine em versão Toys-“R”-Us quebra a mística da coisa.

30.11.06

Maria pelo Natal

The water up there



No âmbito de uma campanha para incentivar a poupança, a agência Sukle desenvolveu estes suportes para a Denver Water. Nice.

Arisca, a autêntica

Frémito galináceo



Eis o que acontece quando nos armamos em comentadores de blogs de publicidade: picardias absolutamente desnecessárias. Mas pelo menos alguém está a prestar atenção. Eu respondo pelo nome de Arisca e o “interlocutor” pelo nick de Drunk Dave.

Submitted by Arisca on Wed, 2006-11-15 22:47

Enough of these PETA maniacs already! Yeah, let's all turn vegans and eat boiled roots, avoid animal proteins and embrace subnutrition 'cause the chicks must populate the earth. If you're a 12 year old girl you may find it pertinent. Lame.


reply
Submitted by drunk dave on Fri, 2006-11-17 18:12.

You are a moron. It's hard to be a vegetarian, which I'm not, but the message not to eat meat is very pertinent, and if you've ever been to a slaughter house or chicken farm, you'd think twice. And the less meat we eat the more we save the planet.
So maybe it's a very important message they have to say, that said, this ad 'aint gonna change perceptions 'cos it's just not strong enough. Sorry. Start again.

reply
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Submitted by Arisca on Thu, 2006-11-30 21:53.

Well, Dave, here's why people like you should join PETA. Would advise you to watch An Inconvenient Truth and then pontificate about saving the planet. By the way... I do avoid meet.


Submitted by drunk dave on Fri, 2006-12-01 01:08.

Point taken. And I'd never join any extreme organisation, but they have the right to advertise, even if you disagree.

reply
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Submitted by Arisca on Fri, 2006-12-01 03:38.

I admit it was an outburst and of course they have the right. Businesswise, agreed, it just isn't strong enough.


Campanha: PETA, FCB Portugal

Forum Crisalide






Com um design arrojado e uma execução exemplar, esta campanha da JWT Itália para a Forum Crisalide, a Associação Italo-Suíça envolvida no combate à anorexia e à bulimia, parece ir buscar inspiração tanto a Joel-Peter Witkin quanto aos filmes da série Saw. Não me parece, porém, que seja o tipo de imaginário que influa no target: raparigas que tendem a ficar enredadas nas malhas ditatoriais da TV e dos anúncios de moda. Criatividade entrópica?

28.11.06

Coimbra PB



Av. Sá da Bandeira. 1979 e o desenvolvimento que se avizinhava.

A meu ver




Um anúncio redondo. Como (quase) todos deveriam ser.

A Publicidade em Tempos de Cólera XI






Campanha: Boardersinn Extreme Shops

A Publicidade em Tempos de Cólera X




Campanha: Pony Luvbird

A Publicidade em Tempos de Cólera IX





Campanha: FLIRT Vodka: "Are You Ready for Tonight?"

A Publicidade em Tempos de Cólera VIII




Campanha: Renault Twingo

A Publicidade em Tempos de Cólera VII




Campanha: Dan Rather Reports, HD Net

A Publicidade em Tempos de Cólera VI






Campanha: Pain Without Borders

27.11.06

A Publicidade em Tempos de Cólera V




Campanha: C'est So Paris - The Parisian Attitude

A Publicidade em Tempos de Cólera IV




Campanha: Heineken Beer

A Publicidade em Tempos de Cólera III




Campanha: Sundek: Deadly Attractive

A Publicidade em Tempos de Cólera II




Campanha: Arena Squalo

A Publicidade em Tempos de Cólera I



Não irei seguramente começar a pronunciar-me acerca dos limites da publicidade nem perorar sobre a validade conceptual das propostas que irão desfilar, mas por razões estritamente estéticas (e tudo o que isso compreende), decidi inaugurar um espaço que privilegia aquilo que considero má publicidade com uma boa – excelente, até – execução. Depois de uma recente troca de impressões sobre o que pode ou não ser de mau-gosto, de acordo com critérios menos universais, partilho aquilo que as marcas ou entidades estão dispostas a mostrar para veicular a mensagem - em última análise, vender. Analisar o contexto criativo e o objectivo / manipulação na criação de atitudes e comportamentos de consumo (proporcionar experiências de que tipo? Aspiracional? Ilustrativo? Subliminar? Choque pelo choque?) seriam premissas interessantes para um debate, envolvendo uma pluralidade de opiniões.
No exemplo presente, é legítimo pedir maior refreio e menos apelo a reacções meramente emocionais? Este debate não terá lugar aqui, mas fica a intenção – e, no mínimo, informação residual para comentar à hora do café. Enjoy.

Campanha: Watch Around Water, Austrália

20.11.06

202

Podem tirar o indivíduo do mundo mau mas não podem tirar o mundo mau do indivíduo


Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 16:58

Bom… Eu não me deixo impressionar facilmente, muito menos por estratégias publicitárias e também não acredito que haja tantos iconoclastas assim a gostar deste anúncio. Nem sei se é popular (ainda não, pelo menos) ou se terá resultados efectivos. De qualquer modo, para mim é uma vitória quando a publicidade supera os seus limites intrinsecamente untuosos e consegue ser incómoda e transgressora, defendendo um conceito sem concessões e acartando com as devidas consequências: seja a aceitação plena por parte de meia dúzia de loucos ou a rejeição total pela generalidade do público. Mais feliz ainda se consegue, com o seu tom ‘sujo’ e ‘grosseiro’, tornar o produto apetitoso por uma via (quase) só conceptual. É tonto, o humor é absurdo, mas é eficaz. Bottom line, o facto de estarmos a falar dela (com)prova que é eficaz. A VW faz anúncios lindíssimos com uma execução brilhante, ideias base muito bem definidas e copys exemplarmente sintéticos. Mas não me dá vontade de falar deles.

Enfim, as opiniões são como as cerejas (ou como as vaginas?) e é sempre bom partilhá-las. As cerejas!

http://adsoftheworld.com/media/tv/masterly_ham_schilder
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Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 16:28

Num tom + sério. Acho que é a velha questão do anúncio inteligente/engraçado ou do anúncio eficaz. Se a coisa se resume a vender fiambre às massas, duvido da eficácia deste anuncio (quem sou eu para dizer tal coisa, mas…).

Se for para vender fiambre a um nicho de mercado (que não o grosso da classe média conservadora “não me chateiem dêem-me coisas agradáveis que não me façam pensar” em que me incluo), talvez seja eficaz.

Se for para impressionar uns quantos pares do meio da publicidade e áreas criativas afins a coisa já funciona.

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Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 15:53

Há dez anos atrás, quando tinha a idade do puto do anúncio, teria achado do caraças. Hoje continuo a achar que coisas destas (note-se que são 4 anúncios com situações muito diferentes – depois envio os outros) são das muito poucas que subvertem as boas-maneiras hipócritas e enfadonhas dos anunciantes de bancos sabujos que espetam com trombas de wannabes em mupis a criar ruído no meu quotidiano. Pode não ter nada a ver com o fiambre, mas quem aprovou esta campanha muito provavelmente tem filhos e/ou sobrinhos, ouve Magnetic Fields, é divorciado, foi gozado na escola, gosta de humor britânico e do stream da velhinha a dar um chuto na criança que correu a net E… nem gosta de fiambre. Não gosto do politicamente incorrecto da questão. Gosto de não haver questão em ser incorrecto. E, concordo, essa paneleiragem devia ser toda executada, de preferência enforcada em gravatas cor-de-rosa. Tenho dito.

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Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 15:23

Há dez anos atrás (dentro da minha t-shirt do PSR) teria achado fantástico. Hoje na minha camisa às riscas e gravata cor de rosa acho deplorável. Primário. Grosseiro. Sem qualquer tipo de respeito pelos valores familiares. Esta gente, juntamente com médicos que praticam abortos, homossexuais, rappers, e afins deveriam ser queimados.

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Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 14:57

acho que a teoria do alex está certa. se fosses pai talvez não funcionasse mas como ainda tens esse humor mordaz a coisa funciona.

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On Nov 16, 2006, at 2:54 PM

Eu devo ser mesmo ruim, porque me deu vontade de comprar desta marca…

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Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 13:00

tadinho... que fiambre mauzão!

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On Nov 16, 2006, at 12:24 PM

Ora aqui está um belo case study. Acho que pode fucionar muito bem com malta sem filhos mas com pais… no way José!!!

Não é humor, é cerúleo


O Gato Fedorento faz-me lembrar um anúncio a uma bebida gaseificada que andou para aí a ilustrar a paisagem urbana apregoando virtudes duvidosas. Adaptado à medida destes jovens comediantes, daria qualquer coisa como: “Sem açúcar, sem calorias, sem corantes, sem conservantes, sem gordura, sem proteínas, sem vitaminas, sem sais minerais, sem sal, sem gás, sem sabor e, porque a malta é mesmo iconoclasta, sem conteúdo!”. A única coisa que sobra é lata. Bastante lata. Com a experiência adquirida, meios à disposição e uma base de fãs alargada à espera de material de qualidade, não seria este o momento para se aplicarem um pouco mais no mister e menos na venda de uma popularidade de fôlego curto? Mesmo considerando, como diz uma amiga minha, que “todos temos a prestação da casa para pagar”, ouçam, rapazes, se querem fazer realmente algo que mude a face do humor em Portugal, esforcem-se mais. Matt Lucas, David Walliams, Julia Davis, Catherine Tate, French & Saunders et ali nem sempre são geniais, mas também não passam a vida a ajeitar o casaco e a gravata, a coçar o nariz e a trocarem one liners baços e autocomplacentes perante uma plateia enlatada. Não nos tomem por tolos, porque o Gato apodrece antes de se justificar tanto hype.

2.11.06

Escrito a cor-de-rosa



Clara de Sousa revelou-nos que, apesar de muitos esforços da sua parte, nunca foi coitadinha. A jornalista, actualmente a atravessar um período complicado, afirma que os rumores não correspondem à verdade e que, apesar de não lhe agradar a situação presente, já consegue lidar com a triste realidade. “Foi-me muito difícil aceitar que nunca iria ser coitadinha e era horrível ler na imprensa que era uma coitadinha, mas isso nunca foi verdade”. A apresentadora do “Jornal da Noite” acrescenta que, embora tenha contado com o apoio dos amigos e da família, decidiu desistir de ser coitadinha e concentrar-se em atravessar estes momentos com a garra que a caracteriza. “Percebi que não ganhava nada em insistir e ouvia as pessoas a acusarem-me de ser coitadinha. Sofria muito com isso, pois era inteiramente falso”. Clara ainda manifesta a esperança de conseguir vir a sê-lo, mas tal dependerá de condições futuras que estão fora do seu controlo. “Espero conseguir”, diz, visivelmente emocionada, “mas tal dependerá de condições futuras que estão fora do meu controlo”. Clara desculpa-se, dizendo que é tarde e que está bem disposta, embora sabendo que o facto de não ser coitadinha pode prejudicar a sua imagem pública, como já prejudicou a sua vida pessoal. “Sei que muita culpa é minha, mas muita culpa não é minha, também”. E é com a garra que a caracteriza que a jornalista, apresentadora do “Jornal da Noite” da SIC, enfrenta estes difíceis momentos, certa de que, um dia, também ela será coitadinha.

Impasse criativo







Ou como custa ganhar o pão.

caGa lumE: não há cave que os aguente



Paco, Wander Rodrigues e Eliene Vicente fumam Gitanes espanhóis e bebericam absinto rosé na cave dos pais de Wander, onde deambulam nocturnamente sobre a intensidade repugnante do apocalyptic-catarro e e o agror voluptuoso dos riffs menstruais de Eliene, evocando o fedor raro e grandioso das tertúlias no Verme Parasita , o bar de todos os encontros, onde escutavam e absorviam o antagonismo controlado de Ol’ Wanna Manna Humbie Shaka Master, príncipe do coaltoasted-bicostal-rudeawakening ska, e a rítmica belamente ábsona dos Status Quo. Na altura não havia o MySpace e os três conheceram-se e partilharam o sémen criamoso através de uma mailing list da Rádio Rexenxão, que emitia a partir de uma cabine montada no WC feminino do liceu que todos frequentavam. Wander Rodrigues ainda não terminou o 11º ano, mas a rigidez das Técnicas de Tradução de Francês têm-no impedido de progredir. Além disso, desempenha funções de programador cultural no Verme Parasita, trabalho que classifica como “um shot de genebra com parafinina e pimenta branca, que limpa a tripa, solta os fluidos criativos e deixa a alma manca”. Paco dava-se a conhecer como “Jobi36”, numa alusão explícita ao líder dos Bon Jovi, banda que hoje renega mas que considerou importante nos seus anos formativos, sobretudo nas aulas de ukelele. Acontecia assim a primeira troca de conceitos e formulações em volta do potrock que mais tarde haveria de marcar o percurso do caGa lumE – assim mesmo, com o “g” e o “e” maiúsculos, em homenagem à marca do desumidificador na cave, que diminui o agressivo mas reconfortante cheiro a mofo. Eliene foi a primeira a gravar uns minutos de ensaio no dictafone do mp3 e a convertê-los para wma no PC, de onde saíram para uma pen Iomega de 128 mb, com a qualidade de som possível. Foi assim que versos envoltos numa neblina bravia de neue deutsche welle com a galhardia gostosa do nhac dan toc cai bien progressista chegaram aos nossos ouvidos:

"Tapa medi! Hée, hée!
Tu, vana, tuna tuna hée hée!
Vago vago vago! Ó,ó,ó!
Tuga uga puga, dá-nos fome! Hée, hée!
A nós, dá-nos sede! Ó, ó, ó!
Dá-nos, dá-nos danos! Hée, hée!
Nós morreremos! Ó, ó, ó!"

O caGa lumE veio para mostrar por que razão não ficou na cave. O próximo passo: um download gratuito no Sapo. Em breve, Paco, Walter e Eliene estarão num patamar condizente com o seu talento. Muito possivelmente, um rés-do-chão.


P.S. Obrigado ao Y e a Mário Lopes por inesgotáveis momentos de inspiração.

30.10.06

Zoo TV


Até quando nos vai o nepotismo mediático submeter ao horror de contemplar a Manuela Moura Guedes? Muito bem. A pobre não terá culpa de ter sido vítima da miopia do seu cirurgião plástico. Nós também não. Não temos culpa dos talhos e retalhos, inchaços e desinchaços que transformaram aquela bocarrona gulosa numa carantonha de pavor. Não se sabe se foi para desviar a atenção das dimensões despropositadas das suas interpelações, se para evitar que o público se ativesse a pormenores de somenos – inexistência de bom-senso, de fundamentação sólida, de coerência –, se pressões inelutáveis a levaram a retardar a marcha do tempo… Certo é que a boa e velha Manela não só tem agora a aparência de uma alcachofra gelificada – num corpo muito respeitável, reconheça-se – mas, pior, muito pior, continua a ser a mesma chanfradona incontrolável de outrora. Uma vedeta sem causa que ganhou protagonismo graças à mente enferma do mercenário mor do audiovisual português. Antes disso, enquanto aguardava na sombra do marido, o mamute dos noticiários nocturnos anunciava o Persil e, pelos vistos, andava a snifar a coisa, a ver pelas entrevistas que concedeu na época. Deprimida ou não, com rosas ou com cardos, com bisturi ou sem bisturi, por favor, já chega. Não impinjam ao povo a Manela, caracterizada como uma empanada expressionista, a mostrar as cuecas num vestido de prom queen. Muito menos enquanto entoa, com um solfejo soturno, melodias do André Sardet. Tanto constrangimento pode causar úlceras.

À procura de Ed


Há já algum tempo que não vemos Edward Norton num papel à altura do seu talento. Há já algum tempo, aliás, que não vemos Ed Norton em lugar nenhum. Se ninguém deu por ele em “Reino dos Céus”, de Ridley Scott, é normal. Desde logo porque quase ninguém deu pelo filme, protagonizado pelo protozoário Orlando Bloom, mas, para quem viu, o papel de Rei Balduíno IV (o Leproso) obrigou-o a usar uma máscara permanente e a alterar substancialmente o tom de voz e a elocução. A sua interpretação (assim como a de Eva Green, que encarna a sua irmã Sibila) foi largamente cortada na versão que estreou nos cinemas. No director’s cut de 195 minutos é agora possível avaliar a intensidade e a dimensão trágica das interpretações de Norton e Green e ver o filme sob uma nova luz. Ed Norton continua a ser, aos 37 anos, uma das grandes esperanças do cinema americano, mas tem preferido adiar o papel de estrela para investir na integridade artística – o que significa, muitas vezes, entrar em conflito aberto com realizadores e produtores, reescrever guiões e retirar o seu nome dos créditos dos filmes (guia prático: “Golpe em Itália”, “América Proibida” e “Reino dos Céus”). Em 2006 regressa em três fitas: “O Ilusionista”, prestes a estrear entre nós, uma adaptação de O Véu Pintado, de W. Somerset Maugham, com Naomi Watts, e Down in the Valley, onde o seu desempenho de um homem mentalmente desequilibrado lhe tem valido os maiores elogios. Para muitos, porém, o seu melhor filme até à data é “A 25ª Hora”, drama que traz a assinatura de Spike Lee.
Lee referiu por diversas vezes que este é o filme da proclamação de amor a Nova Iorque, por entre as nuvens negras do pós-9/11, numa ode visceral à sua diversidade, às suas contradições e aos seus traumas. As personagens de “A 25ª Hora” carregam o peso da revolta, da confusão e da dor pelas ilusões perdidas. Figura emblemática: o Morty que Edward Norton interpreta com enorme garra – um homem inteligente que poderia ter uma carreira mas que tem, em vez disso, uma pena pendente de sete anos de cadeia por tráfico de droga. É aos últimos momentos de liberdade de Morty que assistimos, por entre cantos familiares da Big Apple, povoados de personagens disfuncionais: o pai (Brian Cox), os amigos Jacob (Philip Seymour Hoffman) e Slaughtery (Barry Pepper) e a namorada, Naturelle (Rosario Dawson), que o fazem sentir, de forma dolorosa, que a inocência é irrecuperável. Restam ambições inúteis e desfeitas e o afecto pelas coisas passadas. Num cenário de desolação moral, um drama duro e directo que não deixa ninguém indiferente.
Até ao nosso reencontro com Ed, um filme para rever e admirar a sua excelência.

We are fully prepared for any kind of offensive action


27.10.06

E a Terra tremeu


Se a contemplação do arrojo desta capa não for suficiente para vos convencer da importância das artes gráficas na manutenção de um certo equilíbrio tectónico, mais informações sobre esta arrasadora performer aqui.

Manual de instruções


A experiência é um médico que chega sempre tarde.

Notícia do Além


Volta e meia somos surpreendidos com pérolas destas. Na secção “TV e RÁDIO” do Público, há algumas semanas atrás, o repórter anunciava, de forma implícita mas resoluta que: a) Cameron Diaz havia falecido mas conseguia comunicar (pior: apresentar queixa!) além-tumba; b) Cameron Diaz nunca esteve viva e nós somos o Haley Joel Osment, acabadinho de acordar para a realidade. Do mau jornalismo.

Temperamental


















O sol de hoje potenciou as sinapses químicas no meu sistema nervoso central. O monopólio da disforia foi momentaneamente dissipado. É necessário descentralizar o poder e dou as boas vindas as esta presidência aberta. Mesmo que dure só o fim-de-semana já valeu a pena. Viva o Outono com os seus entrecortes.

25.10.06

Queixume


Gostava de passar mais por aqui, para ninguém me ler e ninguém se importar com a muita ou pouca qualidade da minha escrita.

Bebé


















Toda esta composição (incluindo as oportunas beiçolas lascivas) denota uma marotice premeditada, ou é só impressão minha? O copy está particularmente bem conseguido. Força, Mantorras, não te acanhes e arrasa com o derradeiro tabu. Se a Bibi era considerada um mulherão por que razão não o há-de ser a filha do Nené – mesmo parecendo que chocou de cara com uma prensa metálica?

Selvagem


Talvez seja o stress, talvez seja o tempo, talvez seja a alimentação, talvez sejam os genes, talvez seja a programação da TV portuguesa ou simplesmente a marcha inexorável do tempo, mas o certo é que o meu trânsito intestinal também daria azo a um selvático filme de terror.

A propósito do Massacre



Estreou há duas semanas nos EUA a prequela de Massacre no Texas, The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning. Se desta versão pouco se espera, em face das críticas e da adesão do público, já a revisitação daquele filme de culto em 2003 (então com 30 anos), atingiu outro patamar de sucesso. O original de Tobe Hooper (autor do infame Poltergeist) provocou uma autêntica revolução no género e abriu um novo capítulo na história do cinema de horror. Seria difícil fazer-lhe justiça, mas o remake realizado pelo alemão Marcus Nispel (oriundo da publicidade e dos videoclips), sob a égide do não menos infame Michael Bay, produtor de serviço, apresenta um bom trabalho de recuperação das raízes tenebrosas dos clássicos de terror dos setenta, graças à violenta intensidade dos cenários, a uma hábil utilização do subjectivo e a uma maior economia do gore, aplicada clinicamente às situações mais brutais, mantendo sem esforço um ambiente sufocante e assustador. Com desempenhos invulgarmente realistas de Jessica Biel, Jonathan Tucker, Eric Balfour e Erica Leerhsen, um brilhante trabalho de fotografia de Daniel Pearl (também vindo do universo musical e habitual colaborador de Nispel) e do director de arte Scott Gallagher, The Texas Chainsaw Massacre é um espectáculo de terror puro, só para estômagos fortes. Uma sugestão para os dias de tráfego intenso no videoclube mais perto.

22.9.06

O subtil Major


"Não se meta comigo. Não se meta comigo, porque a minha vida é tão digna como a sua", disse Valentim Loureiro, em declarações à SIC Notícias, numa reacção às declarações do presidente do Benfica, que ontem associou o ainda presidente da Liga à obtenção de resultados falseados nos jogos de futebol.

Huum… O que é que ele quererá dizer com isto? “…Amigo, se preza a sua vida, a dos seus, os seus bens e os bens dos que lhe são queridos, não queira entrar nesta disputa complexa, que poderá ter consequências desagradáveis e mesmo pesarosas”. Ou talvez: “A minha vida é tão digna quanto a sua, amigo, não se meta comigo porque eu sei cá de umas coisas que devem interessar aos pasquins” [“digna” com o sentido de parábola saída dos evangelhos do Major: “chafurdice”, “nojeira”, “esterqueira completa”, “imundície sem paralelo”, porqueira viciosa”, “escabrosa espurcícia enferretada”]. Algumas nuances interpretativas poderão conferir um teor insuspeito a estas palavras: “Sou apenas um ser-humano, com os meus defeitos e as minhas falhas. Não me julgue dessa forma sumária, não se meta comigo porque sou, afinal, uma criatura frágil. Não quer ser antes meu amigo?”. Na versão mais arrevesada, mas igualmente válida, poder-se-á encontrar uma manifestação de receios atávicos: “’Tás-te a meter comigo, ‘tás-te a meter comigo, palhaço de merda? Queres levar nos cornos, g’anda paneleiro, queres, queres, queres, queres? Tázolhar? Nunca vistes, ó car***!!!”. Que dizer, é a psique quase insondável de um autêntico major português.

18.9.06

Isto & Aquilo


Easy Work, Don Gummer, 1999

Tudo cai no devido lugar


















Ter a consciência do seu devido lugar é apanágio de pessoas inteligentes. Espero eu.

Pupupussy



...The Pupu is back.

Quem foi que disse?...


"Nós não temos uma democracia: temos um regime de regras formais que permitem a democracia."

Agravando a situação


Ninguém disse ao Miguel Carvalho que é um perfeito idiota? Quem o instituiu como cronista? Por que razão está este gajo a obstipar uma coluna que poderia ser escrita por alguém com, por exemplo…ideias! Ah, esperem. Deve ser o cantinho da burguesia serôdia. Um espaço criado à imagem da auto-complacência babosa de Miguel Sousa Tavares: um prosaico porfiar de banalidades enfartadas que, não só não correspondem a uma realidade social (tão só fantasiada em meios urbanos enfastiados e dados à autofagia), como revelam muito pouco reflectir sobre o que provoca as mudanças, o que, delas, de bom poderá decorrer e o que, à luz do tempo, não passará de letra morta, porque, simplesmente, o sentido de humor tem esta impermeabilidade a tudo, incluindo sentenças de encharutados comichosos.

Miguel Carvalho vive tempos difíceis

Socorro!
Vivo tempos difíceis...

Não tenho carta, não conduzo e não sei distinguir um Fiat de um Volvo. Sou a piadinha favorita dos amigos e dos familiares: olham-me como algo de verdadeiramente jurássico e, às vezes por caridade, lá me dão boleia.

Demorei a comprar um telemóvel. Há uns anos acabei por ceder porque, qual patinho feio, já poucos me ligavam. Entre aparelhos perdidos e estragados, já lá vão uns três. A tecnologia vinga-se de tanto desamor e desapego, deve ser isso.

Num tempo de culto do corpo, da natureza, da praia, do mar, do surf e das boas ondas, não sei nadar. Qualquer fim-de-semana numa quinta com piscina é risota geral porque procuro sempre a parte reservada às crianças. «Olha para aquele matulão...»

Já dei comigo cheio de problemas de consciência por me atirar com parcimónia e beiços besuntados a um cabritinho de leite com batatinha alourada e arroz de forno. Os olhares em volta, das crianças e dos papás, foi de tal modo censório que encostei os talheres, pedi a conta e saí de fininho disposto a contribuir com 25 por cento do meu ordenado para a Sociedade Protectora dos Mémés de Forno.

Já comi duas ou três vezes em restaurantes macrobióticos e aí, sinceramente, descobri que o meu amor pelos outros era verdadeiramente digno de registo, tendo em conta o esforço que fiz para não perguntar onde é que, afinal, íamos jantar.

Durante semanas um simpático senhor de um ginásio da moda telefonou-me a perguntar pelo meu joelho direito só porque eu disse que, enquanto estivesse a fazer fisioterapia, não me apetecia decidir se queria ou não aceitar as fantásticas promoções que eles tinham para mim: um mês grátis para me amaciarem o lombo e prestações mensais bem em conta para me darem o corpinho com o qual, de resto, eu nunca sonhei.

Não vou de férias para Cancun, Coraçao, Fortaleza, Varadero ou Vilamoura e fico sem conversa numa roda de amigos.

Um funcionário da FNAC convidou há dias, de forma algo seca, um amigo a abandonar o balcão da cafetaria e a sentar-se numa mesa próxima porque não se pode fumar ao balcão. Para mim, foi novidade saber que, na FNAC, o fumo não circula e, até por isso, apeteceu-me fumar com ele.

Li na revista Pública que o facto dos homossexuais estarem progressivamente a sair dos armários – e ainda bem - está a ser aproveitado em termos comerciais para, perversa e sub-repticiamente, impor um estilo, um modo de vida, uma maneira de ser e estar, com linha de cosmética e histórias da carochinha à medida. Um dia destes dizem-me que não posso gostar de mulheres porque... não vende ou não é politicamente correcto.

Já deixei de ler Lucky Luke há uns anos pelo facto de ele ter trocado o tabaco de enrolar por uma palhinha. E daqui a uns tempos até Tom e Jerry vão deixar de fumar. Pior: vão aparecer aos nossos olhos como se nunca tivessem fumado.

Chega. Está decidido: vou fechar-me em casa e encher a despensa até abarrotar. Só entra quem disser a frase passe - «boa vida, vida da boa» - levar uma garrafa de vinho, uma caixa de charutos e souber cozinhar, pelo menos, uns rojões à minhota. A intolerância combate-se com a intolerância. Assim querem, assim têm. Se é preciso organizar a resistência, que se comece por algum lado.


Miguel Carvalho, VISÃO ONLINE, 24 de Agosto de 2006

15.9.06

O Luís já foi à Paris


O Luís já foi à Paris e, como ele, dezenas de outras criaturas, vivas e inanimadas e, eventualmente, alguns objectos, de materiais e formas diversificadas. Essa é a única razão atribuível ao entusiasmo de milhares de rapazinhos púberes por este produto de aviário dourado, que vêem assim os seus sonhos húmidos legitimados e a estremecerem en plein soleil. Não há mais nada a dizer quando a epítome da vacuidade trash se converte no ídolo de adolescentes e pré-adolescentes um pouco por todo o mundo. Perante a inanidade, a insuperável bimbalhice e a mais liminar ausência de talento – talvez lhe falte descobrir a sua verdadeira vocação, ou, pelo menos, deixar de a assumir como um hobby caseiro –, só prevejo a aplicação de boas e velhas técnicas pedagógicas à maneira do astuto Herodes, de forma a prevenir a propagação do mal. De repente não temos adolescentes tradicionais, temos a Village of the Damned a querer dominar o mundo, lobotomizada e impelida por um instinto maléfico seminal: eliminar todo e qualquer sinal de inteligência nas gerações vindouras. Nos dias que correm um queijinho fresco teria maior versatilidade e esperança de vida artística do que uma alforreca sintética como a Paris. Mas pronto, perdemos de vez a inocência quando a Ana Faria se reformou.

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