14.3.12
Os chineses são tramados
Vi isto hoje no The Hollywood Reporter online. Esqueçam os plásticos, os têxteis, a cosmética nuclear e quase tudo o que funciona a pilhas. A contrafacção criativa é que está a dar. Ponham estes gajos à frente de um Photoshop pirateado três vezes e eles dão à luz pequenas maravilhas. Seja como for ninguém vai poder confirmar, de modo que "what you don't know doesn't hurt you", como reza o provérbio, devidamente plagiado.
10.3.12
"Préface"
Nous vivons une époque épique et nous n'avons plus rien d'épique
La musique se vend comme le savon à barbe.
Pour que le désespoir même se vende il ne reste qu'à en trouver la formule.
Tout est prêt :
Les capitaux
La publicité
La clientèle
Qui donc inventera le désespoir ?
La musique se vend comme le savon à barbe.
Pour que le désespoir même se vende il ne reste qu'à en trouver la formule.
Tout est prêt :
Les capitaux
La publicité
La clientèle
Qui donc inventera le désespoir ?
Avec nos avions qui dament le pion au soleil,
Avec nos magnétophones qui se souviennent de "ces voix qui se sont tues",
Avec nos âmes en rade au milieu des rues,
Nous sommes au bord du vide,
Ficelés dans nos paquets de viande,
A regarder passer les révolutions
Avec nos magnétophones qui se souviennent de "ces voix qui se sont tues",
Avec nos âmes en rade au milieu des rues,
Nous sommes au bord du vide,
Ficelés dans nos paquets de viande,
A regarder passer les révolutions
N'oubliez jamais que ce qu'il y a d'encombrant dans la Morale,
C'est que c'est toujours la Morale des autres.
C'est que c'est toujours la Morale des autres.
Léo Férré, 1956
9.3.12
O Slogan Recalcitrante
Para empresa de telecomunicações.
8.3.12
Hard copy 53
Quando as palavras ocupavam o tempo do consumidor com confiança e galhardia, o espaço para o desastre era maior. Um bom exemplo, este. Além de uma vírgula refractária que se encarrega de separar um sujeito do seu complemento directo, temos uma bem-intencionada interrogação negativa que soa ou a interpelação desagradável ou a expressão de desalento.
Visto aqui.
Visto aqui.
1.3.12
Hipocrisia a metro
Se dúvidas houvesse de que o espectro do salazarismo ainda paira sobre a realidade portuguesa, veja-se a recusa do Metro de Lisboa - devido a preceitos "morais" - em difundir a campanha publicitária ao site de encontros - gay -
Manhunt (que, por sinal, e graças a esta rejeição, teve direito a uma divulgação gratuita exponencial). Evoluímos? Pois evoluímos. Agora não há problema nenhum em expor as criancinhas, os católicos, as viúvas e as pessoas doentes a umas fulanas todas grossas, em lingerie e touca de freira, com meio mamilo a rojar num poste, alentadas por uma frase que apela a arrancar-lhes a cueca. É só uma ideia, creio que dá para perceber. Ou à objectificação mais primária saída desse buraco negro criativo que é o "Boa ZON" (e cujo subtexto de grande subtileza é: "Ó BOAZONA, GROSSA, TESUDUA, RIJA, PAPAVA-TE TODA A SALIVAR COMO UM JAVARDO, TÃO MULA QUE ÉS!"). Nem tão-pouco ao imaginário sexy-seboso de Zezé Camarinha, lembrando-nos orgulhosamente, com divertidos trocadilhos, que é um esplendoroso representante do labrego português na versão prostibular. Enquanto a direcção do Metro faz um gostoso bobó à hipocrisia, fazendo de conta que está no genuflexório a afastar o demo, Cerejeira ri-se lá dos confins do inferno nas trombas da democracia.
6.2.12
3.2.12
A resposta está no Chagas
Chamem este gajo. Por duas dúzias de euros, um bacalhau e um bom Dão, ele inventa mais um botão e põe ordem nesta porcaria toda. "Excomunhão do Acordo Ortográfico", com a participação especial de Pomba Gira, música ambiente, massagem tailandesa e coffee break solúvel. Lugares marcados e certificados pelo Plano Estratégico Nacional de Desenvolvimento Rural. Reserve já e saiba como se livrar de consoantes infernais, acentos demoníacos e conjugações diabólicas! Se não resultar, pode sempre inscrever-se no "Clube dos Escreventes Anónimos" e partilhar as suas experiências na luta inspiradora contra a dependência morfológica e a possessão sintáctica. Pague em suaves prestações com TAEG a combinar.
"Cânones da Escrita"
Estância arqueológica para os lados da Av. de Berna.
Ainda a propósito desta questão, transcrevo um texto que a minha cunhada V. me enviou, assinado pelo arqueólogo Manuel de Castro Nunes. Não partilho o conservadorismo quase radical do autor, mas é mais uma opinião pertinente e especializada:
"Sim. Está na moda e parece bem violar as convenções e cânones de escrita. Dispensar a pontuação, subverter a lógica da sua aplicação, ordenar os vocábulos de forma caótica numa proposição, intercalar até umas tiradas em latim, desconhecendo em absoluto a gramática latina.
É, sem dúvida, uma atitude esteticamente legítima. Na presunção de que o esteta as conhece e está no seu domínio. E tem a percepção de que, em dadas circunstâncias, as convenções e os cânones da escrita inibem a sua expressão.
Mas o que é curioso é que, da negação das convenções e cânones da escrita decorra a instituição de novas convenções e novos cânones.
Mas o que é mais curioso ainda é mesmo a moda. Aproveitando a maré, aqueles que partem do desconhecimento crasso das convenções e cânones da escrita, podem dividir-se em dois grandes grupos. Aqueles que por ignorância escrevem como calha, uma cambulhada indestrinçável de vocábulos e cúmulo e aqueles que, desconhecendo em absoluto as convenções e cânones da escrita e as razões por que foram instituídas, pretendem instituir uma nova estética literária, caracterizada pela dispensa, sem nexo nem sentido, das convenções e cânones. Ora, convém recordar que a dispensa das convenções e normas da escrita por ignorância resulta em erro. E que, para um leitor atento, o erro não passa despercebido.
Dando um exemplo, eu posso suprimir muitos sinais de pontuação, encadeando as proposições umas nas outras, de forma a que nenhuma se conclua e transite ou flua para a seguinte. Mas se, salvo raras excepções, como a da intercalação de um aposto, eu intercalar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma proposição, estou a incorrer em erro. Pelo menos, devo estar apto a explicar por que razão o fiz.
Um cúmulo de vocábulos não é um poema. A não ser que eu consiga explicar e o leitor compreender por que razão os vocábulos se encontram em cúmulo e que sentido resulta desse cúmulo.
Foi também por ignorância que um universo quase incalculável de espontâneos vanguardistas aderiram ao acordo ortográfico. Por não compreenderem que as línguas de matriz portuguesa, como a brasileira, já se autonomizaram e revoltaram na afirmação da sua identidade contra a língua mãe, diferenciando-se dela em componentes muito mais significantes do que a ortografia, como são a sintaxe e a semântica.
É fácil entrar na presunção de uma nova e vanguardista elegância literária por ignorância.
Por isso, uma nova geração de arqueólogos e de poetas anda convencida de que é compreensível.
Pudera. Todos lhes batem palmas… Há até quem diga de um paper de um arqueólogo que parece uma écloga de Camões. E pode muito bem ir a Nobel."
É, sem dúvida, uma atitude esteticamente legítima. Na presunção de que o esteta as conhece e está no seu domínio. E tem a percepção de que, em dadas circunstâncias, as convenções e os cânones da escrita inibem a sua expressão.
Mas o que é curioso é que, da negação das convenções e cânones da escrita decorra a instituição de novas convenções e novos cânones.
Mas o que é mais curioso ainda é mesmo a moda. Aproveitando a maré, aqueles que partem do desconhecimento crasso das convenções e cânones da escrita, podem dividir-se em dois grandes grupos. Aqueles que por ignorância escrevem como calha, uma cambulhada indestrinçável de vocábulos e cúmulo e aqueles que, desconhecendo em absoluto as convenções e cânones da escrita e as razões por que foram instituídas, pretendem instituir uma nova estética literária, caracterizada pela dispensa, sem nexo nem sentido, das convenções e cânones. Ora, convém recordar que a dispensa das convenções e normas da escrita por ignorância resulta em erro. E que, para um leitor atento, o erro não passa despercebido.
Dando um exemplo, eu posso suprimir muitos sinais de pontuação, encadeando as proposições umas nas outras, de forma a que nenhuma se conclua e transite ou flua para a seguinte. Mas se, salvo raras excepções, como a da intercalação de um aposto, eu intercalar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma proposição, estou a incorrer em erro. Pelo menos, devo estar apto a explicar por que razão o fiz.
Um cúmulo de vocábulos não é um poema. A não ser que eu consiga explicar e o leitor compreender por que razão os vocábulos se encontram em cúmulo e que sentido resulta desse cúmulo.
Foi também por ignorância que um universo quase incalculável de espontâneos vanguardistas aderiram ao acordo ortográfico. Por não compreenderem que as línguas de matriz portuguesa, como a brasileira, já se autonomizaram e revoltaram na afirmação da sua identidade contra a língua mãe, diferenciando-se dela em componentes muito mais significantes do que a ortografia, como são a sintaxe e a semântica.
É fácil entrar na presunção de uma nova e vanguardista elegância literária por ignorância.
Por isso, uma nova geração de arqueólogos e de poetas anda convencida de que é compreensível.
Pudera. Todos lhes batem palmas… Há até quem diga de um paper de um arqueólogo que parece uma écloga de Camões. E pode muito bem ir a Nobel."
Um ar da sua Graça
Já fui um cisne, mas fiz um "downgrade" funcional.
Goste-se ou não da personalidade em questão, a razão está do seu lado. E se há coisa que não vai influenciar minimamente nem "aproximar" a grafia (e muito menos a cultura) destas nações é o acordo ortográfico. Basta ler o mais diverso tipo de textos, escritos por "altas instâncias" administrativas e operacionais, vindos desses redutos do mais extravagante analfabetismo funcional. Juntem-se essas competências à inigualável qualidade da comunicação escrita em Portugal (ah, a cultura, o ensino, a curiosidade intelectual!) e temos uma mais que previsível esquizofrenia linguística. Primeiro há que dominar a técnica e o instrumento, para depois se atacar a sonata. Não é arrancando teclas ao piano que se aprende a tocar. O critério é essencialmente burocrático-estatístico (dizer "esilístico" seria demasiado rebuscado) e comercial. Por isso, o uso merece ser arbitrário, até não haver outro remédio. Linguística e culturalmente, esta conversão é tão relevante quanto um novo corte de cabelo no progresso individual e colectivo. E como tudo o que se fez, e continua a fazer, em Portugal, o capricho bacoco vai acabar por imperar sobre o que é certo, reflectido e fundamentado.
Não há nada de estranho em incorporar evoluções numa língua, um processo necessariamente diacrónico. Mas não se confunda essas ocorrências naturais com a bizarria que é esta óbvia despenalização da calinada, produto de um bando de tecnocratas com a mundividência de uma camilha e o apetrecho linguístico de uma colher de pau, fechados semanas a fio num gabinete interior a conjecturar, a deglutir cafés e a emborcar mini-pastelaria sortida.
Eu não simpatizo com o Vasco Graça Moura, mas ele tomou uma medida correcta e, por isso, bastante corajosa.
25.1.12
How familiar
Lido numa crítica ao filme Hello I Must Be Going, de Todd Louiso:
There is (...) only the spectacle of people so into their own heads and lifestyles that they have scant understanding of or support for the needs even of a close loved one [in Sarah Koskoff’s original screenplay].
Ilustração de Vicky Rabinowicz
Frutalmerdas
Caro senhor proprietário do estabelecimento dos pastéis, dos sumos de fruta madura, das férteis famílias de bem, das senhoras de couraça de laca, dos empregados trombudos, do café queimado, das filas ao almoço, do estacionamento em 2ª fila aos sábados e das buzinadelas insistentes dos carros trancados: quando o senhor proprietário conta a massa fresca ao fim do dia, ou quando se senta proprietariamente no estabelecimento fechado, aos domingos, desfrutando do seu jornal e da sua possessão, ocorre-lhe que, ao efectuar obras nesse recanto dos prazeres, em dias de descanso bem cedo pela manhã, ou pela noite de dias de trabalho dentro, de forma a não perturbar os seus valiosos clientes e o fluxo do pastel, está a incomodar um pequeno universo de pessoas que vivem na proximidade? Concedo que, pela ausência de reacções negativas, a população em causa goste de sofrer, seja surda ou repouse em urnas. Todas elas plausíveis, tendo em conta a zona. No entanto, senhor pasteleiro, ainda há seres de sangue quente a sofrer as consequências da sua ânsia em engrossar o recheio, espetando intermináveis furos e marteladas no silêncio de um repouso merecido. Ponha-se a pau, ou qualquer dia a martelada vai bater-lhe à porta.
20.1.12
Esta é que é a verdadeira artista
Alguém quer realizar esta merda por mim?
Tenho lido várias críticas ao filme W.E. realizado por Madonna, a história de amor entre who the fuck cares, com muitas roupas vintage e cenários bonitos e por aí fora. São todas invariavelmente negativas, mas esta leva a palma, até porque, para além de bem escrita, é especialmente divertida.
Madonna’s skill with the camera seems to extend to her being able to turn it on, but not a great deal further: to liven up an argument between Wallis and Edward, she has her romantic leads inexplicably run around a tree trunk. Later, we see Wallis dancing the Charleston with an African tribeswoman to the strains of 'Pretty Vacant’ by The Sex Pistols in front of a Charlie Chaplin film, which must be a strong contender for the most garbled, half-baked image in cinema history.
(...)
W.E. is — still — a stultifyingly vapid film, festooned with moments of pure aesthetic idiocy. With characteristic humbleness, Madonna performs a song called 'Masterpiece’ over the end credits, although one can’t help but feel that her 2003 number one single 'Sorry’ might have been more appropriate.
Subjectivity is objective
Love and Death, de Woody Allen (1975)
Sonja: Boris, Let me show you how absurd your position is. Let's say there is no God, and each man is free to do exactly as he chooses. What prevents you from murdering somebody?
Boris: Murder's immoral.
Sonja: Immorality is subjective.
Boris: Yes, but subjectivity is objective.
Sonja: Not in a rational scheme of perception.
Boris: Perception is irrational. It implies immanence.
Sonja: But judgment of any system or a priori relation of phenomena exists in any rational or metaphysical or at least epistemological contradiction to an abstracted empirical concept such as 'being' or 'to be' or 'to occur' in the thing itself or of the thing itself.
Boris: Yeah, I've said that many times.
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