15.1.08
Acredito, mas até custa
O Banif está na rua com um rebranding total, para comemorar os 20 anos de existência. A cor do novo símbolo, o “índigo”, representa, segundo a comunicação do Banco, “o equilíbrio de forças que sustentam a tranquilidade, o conhecimento, o idealismo e também a capacidade de sacrifício e de resistência, de devoção e compaixão". O símbolo eleito, o centauro, representa a "força, capacidade física aliada à visão e inteligência humanas". "A força de acreditar" é a nova assinatura, simbolizando a "inteira dedicação e a incansável procura da melhor solução". Para fixar e ilustrar os pressupostos de tamanha virulência publicitária (que contamina televisão, imprensa, rádio, outdoors, eléctricos, autocarros, Internet e pontos de venda), o Banif encomendou um lindo mapa astral onde o centauro dá largas ao seu fulgor. Fiquei sem palavras perante esta campanha resfolegante. Em parte porque o copy as usou todas na apresentação. Nada a fazer contra as máquinas de café nas agências e directores de marketing desesperados.
A cerimónia de celebração do 20º aniversário do renovado Banif contará com a presença – qual centauro honorário – do presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim. E está tudo dito.
Eu era assim. Insonso e encolhido, com umas chavetas a andar de roda.

Mas agora sou assim. Forte e galhardo, galopando vigorosamente pela banca fora.
14.1.08
Vidas* - Fotonovela de baixíssima resolução. Episódio 1: A Revelação.
- Tenho algo a anunciar-vos.
- Diz, amor.
- A chouriça está uma delícia.
- Está, não está? Tão torguiana, não é?
- Não. O Torga nunca escreveu sobre chouriças.
- Pois, claro, está bem, quer dizer, é uma força de expressão, é…
- Bom…
- Diz, querido, que me pões vesga de inquietação…
- Sim, diz-lhes!
- Hum… Esta apreensão desfoca-me.
- Quer dizer, diga, Nuno, diga o que
lhe vai na alma.
- Vou-me embora.
- Embora? Embora?! Como ousas abandonar-nos?
Com cabazes nos enganas, é isso, é? E o que vai ser de nós, figuras públicas iméritas? E as famílias de tantos funcionários públicos dedicados?!...
- Caguei.
- Perdão?
- E eu, velho e cansado… Quem me vai pegar na mão e levar a passear pela História? A minha Clarinha, não a leves, não?
- Não. Nada de carcaças de esquerda a lixarem-me o share. Levo
a Sílvia que é gira e bem mandada.
- És atroz. Fico toda pixelizada.
- Tá caladinha. Tu vais viver com o Gil que
é o que fazes melhor.
- Eu estou que não posso. E quem escreve estes
diálogos é um portento. Ainda há bacalhau?...
- Ouve lá, rapaz, tu não achas que eu sou igualzinho ao Tozé Martinho?
- E vocês, totós, não estão contentes por mim?
- Porreiro, pá!
- Porreiro, pá!
(*Lá diz o meu irmão Pedro)
10.1.08
Uno, dos, tres
Da nossa festa guardo esta recordação frugal mas apetitosa. O pudim estava bom e a bem dizer devia ser sempre assim. Coisa pouca mas autêntica. Devíamos repetir a dose e passar umas noites a fazer "bluff" à volta de gelatina verde, um copo de vinho tinto e chocolate preto. Fez-me muito bem. E já agora, verde é a cor das... sessões espíritas (wink wink)?...
Canção simples
O fumo dos outros

Uma parte das minhas melhores recordações habita no fumo dos tempos. Das salas do CITAC, dos corredores da RUC, das conversas no Tropical, nos intervalos de rodagem, nos jantares de confrades ou nas conversas íntimas, quando um cigarro apagava a hesitação e estendia a conversa. E no entanto não encontro nada de saboroso no tabaco. Não tenho memória de coisas boas regadas a álcool e cigarros, muito menos das ressacas e do cheiro entranhado na roupa e nas papilas. Mas quando se partilham momentos temperados com nicotina a ideia preservada é amigável, tendenciosa, afectiva, até. Há qualquer poesia suja no acto de fumar. Algo de profundamente paradoxal. Um gesto destrutivo e convivial, defensivo e vocativo, que nada tem a ver com a pose estudada do film noir mas se revê organicamente em todas as formas narrativas contemporâneas. É fraqueza e abandono, solidão acompanhada, dependência, tudo muito humano. Não existe, como é óbvio, nenhuma intenção de prejudicar o outro, que é quase a forma como hoje se encara a situação. A coabitação deveria ser pacífica, não vivêssemos nós num caos de impudência cívica. Ainda assim acredito que seria possível um meio-termo, sem termos de engolir valente fumarada na hora de levar o garfo à boca, no restaurante em cunha mesmo ao virar da esquina. Especialmente de meia dúzia de desconhecidos a expurgarem as tensões do meio da tarde. Eu não fumo, não defendo o fumo dos outros, muito menos as tabaqueiras, mas Portugal, opresso pelos seus brandos costumes e vergado pelos problemas mais irrisórios, desenvolve neuroses frequentes. Esta é apenas mais uma.
Os Nossos Valores: Memorial da Irmã Lúcia

Por ocasião do centenário do nascimento da irmã Lúcia, foi reconstituída a sua cela no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde viveu intensamente grande parte da vida de clausura. A esta mina de sensações místicas se deu o nome de “memorial”. Um espaço minimalista porém denso, erigido em memória da vidente das aparições de Fátima, cujo espólio contempla, para além do seu hábito, alguns objectos oferecidos, nomeadamente uma batina e um paramento do Papa João Paulo II. De acordo com a Ordem, “o espaço serve para mostrar os objectos pessoais, algumas cartas que recebeu e lembranças variadas”. Abre-se assim ao público uma nova dimensão da vida e obra desta indomável oradora e causídica espiritual. A mulher debaixo do hábito, a sonhadora dentro da cela. Para além do radiador eléctrico com resistência, que lhe serviu de consolo nas horas duras, podemos ainda vislumbrar um televisor Audinac, indiciando que a irmã seguia o estado do mundo em 37cm, já a cores, pelo menos desde os anos 80. O manuscrito, não publicado, que a religiosa preparou para dar resposta a tantas cartas de devotos, contendo pensamentos e reflexões que exprimem catequeticamente a sua espiritualidade cândida, aí se encontra, fechado num pequeno cofre. Depois da morte da autora, o Carmelo sujeitou o texto à aprovação da Autoridade Eclesiástica, mas ninguém conseguiu decifrar o conteúdo. Tal poderá dever-se a um mais elevado desígnio críptico ou à forte miopia que a afligia desde tenra idade. Dúvida que ainda hoje preside à discussão sobre a descrição enevoada da ocorrência mística e suas declinações. Entre as lembranças que povoam o reduto da intervenção metapsíquica de Lúcia contam-se diversos brindes de bolo-rei, um par de sandálias de atilhos, duas pilhas alcalinas, uma escalfeta, a Bíblia ilustrada e um pratinho de frutas cristalizadas, de onde a carmelita sentia emanar a presença de Nossa Senhora. O memorial, assinado pelo arquitecto Florindo Belo Marques, foi custeado pelo Carmelo e por donativos norte-americanos, irlandeses e espanhóis, em troca da concessão de graças. Este espaço museológico é dotado de “uma sala multimédia” com um projector de slides, sistema de som estereofónico e capacidade para 40 beatas. Construído intramuros, o memorial preserva a intimidade das carmelitas, que vivem em clausura. Uma porta exterior assegura o acesso dos visitantes, em busca de milagres ou de inspiração, sendo que a manutenção do espaço, segundo a prioresa Maria Celina de Jesus Crucificado (I kid you not), será feita “por Obra e Graça do Espírito Santo”. As próprias religiosas ficam impedidas de se deslocar à cela-museu, pois encontra-se fora dos limites do locutório. Um sistema de intercomunicação sem imagem garantirá respostas às inúmeras questões dos crentes, dos peregrinos e da malta em geral. Através de uma caixa colocada estrategicamente ao lado dos óculos de massa da irmã Lúcia, os visitantes poderão efectuar doações ao convento. As carmelitas vivem sobretudo da produção de mais de 100 mil partículas de hóstia por semana, feitas a partir de cerca de 50 kg de farinha de trigo. Menos mal, que para já não se prevê disputarem o merchandising ao santuário original.
7.1.08
Negro Gato

Eu sou um Negro Gato
de arrepiar
Essa minha história
é mesmo de amargar
Só mesmo de um telhado
aos outros desacato
Eu sou um Negro Gato
Minha triste história
vou Ihes contar
e depois de ouvi-la
sei que vão chorar
Há tempos
que eu não sei
o que é um bom prato
Eu sou um Negro Gato
Sete vidas tenho
para viver
sete chances tenho
para vencer
mas se não comer
acabo num buraco
Eu sou um Negro Gato
Um dia lá no morro
pobre de mim
queriam minha pele
para tamborim
apavorado desapareci no mato
Eu sou um Negro Gato
(Getúlio Cortes)
Ilustração de Michael Dougherty
Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco

Luiz Pacheco não é exemplo para ninguém, nem na vida nem na escrita. Era uma célula de desprezo pelo mundo que o continha. A autoridade que o oprimia e desafiava não foi mais destrutiva do que o seu próprio génio, mas seguramente, potenciou-o. Um homem feito raiva, álcool, sexo, vileza, franqueza, vigor, fraquezas muitas em doses aleatórias e generosas. Que escrevia sobre isso e sob isso. Pacheco no mundo e contra o mundo.
Era adolescente quando li O Libertino passeia por Braga e quase percebi a solidão lúbrica que o invadia. Vi um animal abandonado, visceral e inconsequente, provocador e desolado. Claro que está lá mais do que isso. Mais do que, à altura, saberia descortinar. Mas suficiente para informar a minha juventude do que era crueza de pensamento e subversão escrita. Suficiente para marcar tantas outras existências de formas diversas.
Luiz Pacheco não tem nem poderia ter uma “obra” exemplar. Porque não foi esse o seu desígnio. O mestre do neo-abjeccionismo morreu. Ó corifeus da literatura, ó ratos de sacristia, deixem o homem desaparecer em paz.
4.1.08
Oi?
Há quem diga que os brasileiros falam uma língua diferente. Há quem diga que pouco ou nada temos a ver com o que dizem e com a forma como usam o Português. Há quem acredite, pelo contrário, que é mais o que nos aproxima do que o que nos separa. Há quem ache que beneficiamos com a criatividade e o imaginário dos “nossos irmãos” e que a propaganda local é um bom exemplo disso (não sem um processo de aculturação, acrescento). A mim ocorre-me, ao ler este texto de um colega brasileiro num blog relevante de marketing e publicidade, que sim, que dizem as mesmas coisas com recursos semelhantes. Mas, por muito blasé que pareça, nossa, tá me dando uma vontade de manter as distâncias!...
02 January 2008
Antes tarde
Queria ter postado antes, mas o turbilhão do final de ano me pegou primeiro. Anyway, desejo que este ano seja ducaralho para todos que fazem por merecer, correm atrás, não esperam cair do céu, não ficam na sombra dos outros, sonham mas lutam pra realizar.
E vamo que vamo, em ritmo de "engov we trust".
Vem nimim 2008.
02 January 2008
Antes tarde
Queria ter postado antes, mas o turbilhão do final de ano me pegou primeiro. Anyway, desejo que este ano seja ducaralho para todos que fazem por merecer, correm atrás, não esperam cair do céu, não ficam na sombra dos outros, sonham mas lutam pra realizar.
E vamo que vamo, em ritmo de "engov we trust".
Vem nimim 2008.
Vaticano Redux
Tolerância, humanismo, autodeterminação, jurisprudência e ecumenismo revistos e corrigidos em tópicos subtis:“1. NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar os meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperança, aos homens e mulheres do mundo inteiro; faço-o, propondo à reflexão comum o tema com que abri esta mensagem e que me é particularmente caro: Família humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana: « Os homens – sentenciou o Concílio Vaticano II – constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (Act 17, 26); têm também todos um só fim último, Deus ».
2. A família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, constitui « o lugar primário da ‘‘humanização'' da pessoa e da sociedade », o « berço da vida e do amor ». Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, « uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo
de todo o ordenamento social ».
3. Com efeito, numa vida familiar « sã » experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe.
(…)
12. Sobre a natureza e a função da lei, já muitas vezes se pronunciou a Igreja: a norma jurídica que regula as relações das pessoas entre si, disciplinando os comportamentos externos e prevendo também sanções para os transgressores, tem como critério a norma moral assente na natureza das coisas. A razão humana, por sua vez, é capaz de discerni-la, pelo menos nas suas exigências fundamentais, subindo assim até à Razão criadora de Deus que está na origem de todas as coisas. Esta norma moral deve regular as opções das consciências e guiar todos os comportamentos dos seres humanos. Existirão normas jurídicas para as relações entre as nações que formam a família humana? E, se existem, serão operativas? Eis a resposta: sim, as normas existem, mas para fazer com que sejam verdadeiramente operativas é preciso subir até à norma moral natural como base da norma jurídica; de contrário, esta fica à mercê de frágeis e provisórios consensos.”
MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
BENTO XVI
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2008
Ou como promover o atrofio social através do mais bolorento, resvaladiço e anacrónico dos discursos. Pela sua santidade, Ratzinger, ponha uma água fria nesse ardor, desça à terra e dê umas voltas por aí. Talvez ajude se tirar a cabeça de frente do site da Prada e contratar estagiários provenientes de facções progressistas da Igreja, em vez de pescar colaboradores nas catacumbas da Opus Dei.
Para mais sinais de devota demência, é ler a coisa toda.
Eterno retorno

Reabriu a época de caça ao objectivo e este é o ano de matar a temperança. De reafirmar o que não pensamos e, sobretudo, o que não sentimos. Este ano será a mãe de todos os pontos de partida. É tempo de nos livrarmos de estorvilhos gregários e de fazermos triunfar a iniciativa privada. É a nova era da demarcação sob o signo do custe o que custar e do doa a quem doer. É tempo de nos esquecermos uns dos outros em função do eu essencial. De nos redescobrirmos e de nos reencontrarmos em enlevo hedonista. É altura de nos realizarmos com precisão fabril e convicção de gestor. Este é o ano em que não haverá suficiente memória afectiva para crashar o mecanismo. Depois de tantos tempos de espera, vai ser o caminho para todos os finalmente.
2.1.08
Cinco dois em um
5 canções para começar o novo ano e vencer a gripe. Yet again.
"Country Livin' (The World I Know)", Esthero
And I want a life lover that'll go that far
We don't have to do this right
Yes I know who you are
This ride could be ours
Just look at those stars
Baby we could be stars
"In Shock", Kristin Hersh
Party to this party
You are blameless
Ask a question
You get an earful
You are wanted you are wanted
"Kingdom", Dave Gahan
If there's a kingdom beyond it all
Is there a god who loves us all
Do we believe in love at all
I'm still pretending, I'm not a fool
"The Downtime Lights", The Blue Nile
Tonight and every night
Let's go walking down this empty street
Let's walk in the cool evening light
Wrong or right
Be at my side
The downtown lights
"Much Farther To Go", Rosie Thomas
I have much farther to go
Everything is new and so unpredictable
I should just kick my heels together and go home
But I'm not sure where that is anymore
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