27.10.06

Manual de instruções


A experiência é um médico que chega sempre tarde.

Notícia do Além


Volta e meia somos surpreendidos com pérolas destas. Na secção “TV e RÁDIO” do Público, há algumas semanas atrás, o repórter anunciava, de forma implícita mas resoluta que: a) Cameron Diaz havia falecido mas conseguia comunicar (pior: apresentar queixa!) além-tumba; b) Cameron Diaz nunca esteve viva e nós somos o Haley Joel Osment, acabadinho de acordar para a realidade. Do mau jornalismo.

Temperamental


















O sol de hoje potenciou as sinapses químicas no meu sistema nervoso central. O monopólio da disforia foi momentaneamente dissipado. É necessário descentralizar o poder e dou as boas vindas as esta presidência aberta. Mesmo que dure só o fim-de-semana já valeu a pena. Viva o Outono com os seus entrecortes.

25.10.06

Queixume


Gostava de passar mais por aqui, para ninguém me ler e ninguém se importar com a muita ou pouca qualidade da minha escrita.

Bebé


















Toda esta composição (incluindo as oportunas beiçolas lascivas) denota uma marotice premeditada, ou é só impressão minha? O copy está particularmente bem conseguido. Força, Mantorras, não te acanhes e arrasa com o derradeiro tabu. Se a Bibi era considerada um mulherão por que razão não o há-de ser a filha do Nené – mesmo parecendo que chocou de cara com uma prensa metálica?

Selvagem


Talvez seja o stress, talvez seja o tempo, talvez seja a alimentação, talvez sejam os genes, talvez seja a programação da TV portuguesa ou simplesmente a marcha inexorável do tempo, mas o certo é que o meu trânsito intestinal também daria azo a um selvático filme de terror.

A propósito do Massacre



Estreou há duas semanas nos EUA a prequela de Massacre no Texas, The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning. Se desta versão pouco se espera, em face das críticas e da adesão do público, já a revisitação daquele filme de culto em 2003 (então com 30 anos), atingiu outro patamar de sucesso. O original de Tobe Hooper (autor do infame Poltergeist) provocou uma autêntica revolução no género e abriu um novo capítulo na história do cinema de horror. Seria difícil fazer-lhe justiça, mas o remake realizado pelo alemão Marcus Nispel (oriundo da publicidade e dos videoclips), sob a égide do não menos infame Michael Bay, produtor de serviço, apresenta um bom trabalho de recuperação das raízes tenebrosas dos clássicos de terror dos setenta, graças à violenta intensidade dos cenários, a uma hábil utilização do subjectivo e a uma maior economia do gore, aplicada clinicamente às situações mais brutais, mantendo sem esforço um ambiente sufocante e assustador. Com desempenhos invulgarmente realistas de Jessica Biel, Jonathan Tucker, Eric Balfour e Erica Leerhsen, um brilhante trabalho de fotografia de Daniel Pearl (também vindo do universo musical e habitual colaborador de Nispel) e do director de arte Scott Gallagher, The Texas Chainsaw Massacre é um espectáculo de terror puro, só para estômagos fortes. Uma sugestão para os dias de tráfego intenso no videoclube mais perto.

22.9.06

O subtil Major


"Não se meta comigo. Não se meta comigo, porque a minha vida é tão digna como a sua", disse Valentim Loureiro, em declarações à SIC Notícias, numa reacção às declarações do presidente do Benfica, que ontem associou o ainda presidente da Liga à obtenção de resultados falseados nos jogos de futebol.

Huum… O que é que ele quererá dizer com isto? “…Amigo, se preza a sua vida, a dos seus, os seus bens e os bens dos que lhe são queridos, não queira entrar nesta disputa complexa, que poderá ter consequências desagradáveis e mesmo pesarosas”. Ou talvez: “A minha vida é tão digna quanto a sua, amigo, não se meta comigo porque eu sei cá de umas coisas que devem interessar aos pasquins” [“digna” com o sentido de parábola saída dos evangelhos do Major: “chafurdice”, “nojeira”, “esterqueira completa”, “imundície sem paralelo”, porqueira viciosa”, “escabrosa espurcícia enferretada”]. Algumas nuances interpretativas poderão conferir um teor insuspeito a estas palavras: “Sou apenas um ser-humano, com os meus defeitos e as minhas falhas. Não me julgue dessa forma sumária, não se meta comigo porque sou, afinal, uma criatura frágil. Não quer ser antes meu amigo?”. Na versão mais arrevesada, mas igualmente válida, poder-se-á encontrar uma manifestação de receios atávicos: “’Tás-te a meter comigo, ‘tás-te a meter comigo, palhaço de merda? Queres levar nos cornos, g’anda paneleiro, queres, queres, queres, queres? Tázolhar? Nunca vistes, ó car***!!!”. Que dizer, é a psique quase insondável de um autêntico major português.

18.9.06

Isto & Aquilo


Easy Work, Don Gummer, 1999

Tudo cai no devido lugar


















Ter a consciência do seu devido lugar é apanágio de pessoas inteligentes. Espero eu.

Pupupussy



...The Pupu is back.

Quem foi que disse?...


"Nós não temos uma democracia: temos um regime de regras formais que permitem a democracia."

Agravando a situação


Ninguém disse ao Miguel Carvalho que é um perfeito idiota? Quem o instituiu como cronista? Por que razão está este gajo a obstipar uma coluna que poderia ser escrita por alguém com, por exemplo…ideias! Ah, esperem. Deve ser o cantinho da burguesia serôdia. Um espaço criado à imagem da auto-complacência babosa de Miguel Sousa Tavares: um prosaico porfiar de banalidades enfartadas que, não só não correspondem a uma realidade social (tão só fantasiada em meios urbanos enfastiados e dados à autofagia), como revelam muito pouco reflectir sobre o que provoca as mudanças, o que, delas, de bom poderá decorrer e o que, à luz do tempo, não passará de letra morta, porque, simplesmente, o sentido de humor tem esta impermeabilidade a tudo, incluindo sentenças de encharutados comichosos.

Miguel Carvalho vive tempos difíceis

Socorro!
Vivo tempos difíceis...

Não tenho carta, não conduzo e não sei distinguir um Fiat de um Volvo. Sou a piadinha favorita dos amigos e dos familiares: olham-me como algo de verdadeiramente jurássico e, às vezes por caridade, lá me dão boleia.

Demorei a comprar um telemóvel. Há uns anos acabei por ceder porque, qual patinho feio, já poucos me ligavam. Entre aparelhos perdidos e estragados, já lá vão uns três. A tecnologia vinga-se de tanto desamor e desapego, deve ser isso.

Num tempo de culto do corpo, da natureza, da praia, do mar, do surf e das boas ondas, não sei nadar. Qualquer fim-de-semana numa quinta com piscina é risota geral porque procuro sempre a parte reservada às crianças. «Olha para aquele matulão...»

Já dei comigo cheio de problemas de consciência por me atirar com parcimónia e beiços besuntados a um cabritinho de leite com batatinha alourada e arroz de forno. Os olhares em volta, das crianças e dos papás, foi de tal modo censório que encostei os talheres, pedi a conta e saí de fininho disposto a contribuir com 25 por cento do meu ordenado para a Sociedade Protectora dos Mémés de Forno.

Já comi duas ou três vezes em restaurantes macrobióticos e aí, sinceramente, descobri que o meu amor pelos outros era verdadeiramente digno de registo, tendo em conta o esforço que fiz para não perguntar onde é que, afinal, íamos jantar.

Durante semanas um simpático senhor de um ginásio da moda telefonou-me a perguntar pelo meu joelho direito só porque eu disse que, enquanto estivesse a fazer fisioterapia, não me apetecia decidir se queria ou não aceitar as fantásticas promoções que eles tinham para mim: um mês grátis para me amaciarem o lombo e prestações mensais bem em conta para me darem o corpinho com o qual, de resto, eu nunca sonhei.

Não vou de férias para Cancun, Coraçao, Fortaleza, Varadero ou Vilamoura e fico sem conversa numa roda de amigos.

Um funcionário da FNAC convidou há dias, de forma algo seca, um amigo a abandonar o balcão da cafetaria e a sentar-se numa mesa próxima porque não se pode fumar ao balcão. Para mim, foi novidade saber que, na FNAC, o fumo não circula e, até por isso, apeteceu-me fumar com ele.

Li na revista Pública que o facto dos homossexuais estarem progressivamente a sair dos armários – e ainda bem - está a ser aproveitado em termos comerciais para, perversa e sub-repticiamente, impor um estilo, um modo de vida, uma maneira de ser e estar, com linha de cosmética e histórias da carochinha à medida. Um dia destes dizem-me que não posso gostar de mulheres porque... não vende ou não é politicamente correcto.

Já deixei de ler Lucky Luke há uns anos pelo facto de ele ter trocado o tabaco de enrolar por uma palhinha. E daqui a uns tempos até Tom e Jerry vão deixar de fumar. Pior: vão aparecer aos nossos olhos como se nunca tivessem fumado.

Chega. Está decidido: vou fechar-me em casa e encher a despensa até abarrotar. Só entra quem disser a frase passe - «boa vida, vida da boa» - levar uma garrafa de vinho, uma caixa de charutos e souber cozinhar, pelo menos, uns rojões à minhota. A intolerância combate-se com a intolerância. Assim querem, assim têm. Se é preciso organizar a resistência, que se comece por algum lado.


Miguel Carvalho, VISÃO ONLINE, 24 de Agosto de 2006

15.9.06

O Luís já foi à Paris


O Luís já foi à Paris e, como ele, dezenas de outras criaturas, vivas e inanimadas e, eventualmente, alguns objectos, de materiais e formas diversificadas. Essa é a única razão atribuível ao entusiasmo de milhares de rapazinhos púberes por este produto de aviário dourado, que vêem assim os seus sonhos húmidos legitimados e a estremecerem en plein soleil. Não há mais nada a dizer quando a epítome da vacuidade trash se converte no ídolo de adolescentes e pré-adolescentes um pouco por todo o mundo. Perante a inanidade, a insuperável bimbalhice e a mais liminar ausência de talento – talvez lhe falte descobrir a sua verdadeira vocação, ou, pelo menos, deixar de a assumir como um hobby caseiro –, só prevejo a aplicação de boas e velhas técnicas pedagógicas à maneira do astuto Herodes, de forma a prevenir a propagação do mal. De repente não temos adolescentes tradicionais, temos a Village of the Damned a querer dominar o mundo, lobotomizada e impelida por um instinto maléfico seminal: eliminar todo e qualquer sinal de inteligência nas gerações vindouras. Nos dias que correm um queijinho fresco teria maior versatilidade e esperança de vida artística do que uma alforreca sintética como a Paris. Mas pronto, perdemos de vez a inocência quando a Ana Faria se reformou.

15.8.06

Quando Martina Navratilova perdeu a mística


Francamente não sei se é prerrogativa das tenistas possuírem os nomes mais ridículos do mundo da alta competição (ou se sucede o mesmo com todas as habitantes de Leste), mas decidi organizar o meu próprio ranking e se tentarmos repetir estes nomes sem pausas significativas constatamos que alguém andou a brincar com as fichas de inscrição: Elena Bovina, Mashona Washington, Maria Sharapova, Galina Boskovoeva, Na Lia, Natália Vainasova, Kim Clijsters, Elena Dementieva, Daniela Hantuchova, Viktoria Kutuzova, Flavia Pennetta, Dinara Safina, Vera Dushevina, Tiantian Sun e Anna Smashnova (nome artístico, dir-se-ia...).

Raúl Castro

Foto rara, captada recentemente.

Limpeza a seco


Um dos feitos mais relevantes de Fidel Castro foi a eliminação de um grande número de opositores ao seu regime, fossem eles safardanas da pior espécie, trafulhas de médio calibre ou, porque não, indivíduos honestos com opiniões discordantes ou uma visão diferente do que a transição política deveria ser. Seja qual for o caso, em todas as guerras há baixas civis, como agora se ouve dizer muito, e a limpeza a eito deverá ter ceifado algumas notáveis cabeças. Menos mal, se não há corruptos também não haverá ideólogos comichosos e o discurso será exclusivamente de cartilha oficial. Moral da história? Não há. Os encarniçamentos originam condenados e, em processos revolucionários, condenados originam execuções. Fidel reinou enquanto pôde, impôs um longo e persuasivo “discurso”, mas parece ter chegado a hora de cair da cadeira, salvo seja. Há demasiadas multinacionais neste mundo à espera de trincar aquele pedaço apetitoso de terra e a comédia humana tratará de se desenrolar da forma mais previsível. O dique rompeu-se finalmente, mas fica a convicção de que não há nada como um extermínio calculado para garantir a segurança e a estabilidade governativas, quer como medida profilática para as jovens democracias, quer para proporcionar novos arranques da economia ou dos costumes. De acordo com a generalidade dos observadores, aliás, os inimigos primordiais de Fidel continuarão mortos mesmo depois da queda do actual líder cubano. Fale-se de visão política mas, sobretudo, de uma notável gestão do espaço afectivo.

Filhos da Pública


Nunca a noção de informação requentada esteve tão apurada. A Pública de domingo passado presenteia-nos com dois artigos por demais ansiados: um perfil impávido e quase elogioso de Ann Coulter e uma retrospectiva da carreira de José Cid, figurinha estampada, de resto, na capa da revista. Sobre Ann Coulter já se falou aqui e esta será a última vez, aliás porque a sua condição de sketch humorístico faz prever que a qualquer momento lhe caia sobre a resiliente cornadura um peso de (pelo menos) 500 Kg. Nota ao editor da Pública: mais sexy do que Coulter só um artigo sobre o impacto da aerofagia bovina no efeito de estufa. Desculpem lá, mas para além de as alarvidades inanes desta gaja não terem a menor relevância política, a própria gravidade já se encarregou de fazer ao seu conservadorismo siliconizado o que muitos liberais gostariam de lhe ter feito (e não no sentido bíblico). Por mais abordagens que nos tenham sido dadas deste fenómeno de hype fora do prazo, eu continuo a ver Linda Blair, 30 anos depois de “O Exorcista”, repossuída por um animadíssimo condomínio de demónios, com o crucifixo entalado e a vomitar verde por todo o lado. Não é uma visão agradável. O mesmo se poderá dizer de José Cid. Ele próprio terá sido exorcizado para libertar o talento oculto que o possuía, mas a única coisa que conseguiu foi posar nu com um disco de ouro. Felizmente para o Zé este país está recheado de atrasados mentais promotores de mediocridade que, quando não estão ocupados a urinar sentenças sobre defecações artísticas ou a cozer a bebedeira da noite anterior, se encarregam de ressuscitar os freaks do nacional cançonetismo, como se não estivéssemos com as coronárias suficientemente entupidas de merda e de imobilismo. Enfim. O que há para dizer sobre José Cid? Por mais que galvanize a imaginação, não consigo engendrar nada (problema que não parece ocorrer a estes foliões). Imagino que depois do reaparecimento de Vítor Espadinha tudo seja possível. O impulso erótico latente na obra de José Malhoa (um bocadinho mais de arrojo e metia-se a filha Ana ao barulho)? O rasgo etnológico e o subtexto político no trabalho de Carlos Cunha com Marina Mota? Tudo o que fermente e faça felizes os senhores das opiniões. Badaró, é uma lástima já nos teres deixado. Assistirias, seguramente, à tua época de glória.

5.8.06

G8



Qual nome de metralhadora, a mais moderna e letal arma de extermínio em massa, depois de décadas de Kalashnikov nas mãos erradas. O eixo do mal e respectivo bobo.

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