14.2.06

Exemplar


Foi ontem revelado o cartaz oficial do próximo filme de Oliver Stone. Um exemplo de discrição, subtil e respeitoso, para um tema ϋber delicado. Tem impacto sem fazer espectáculo e é bonito sem ser sentimental. A iconografia, inteligentemente aproveitada, não cai na exploração patriótica das mazelas locais. Lá estão as duas figuras humanas, sobriamente heróicas, vamos ver agora o que nos reservam as intenções do cineasta.

Dedicatória



The art of losing isn't hard to master:
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! My last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.



One Art, Elizabeth Bishop

Valentim optimista


A mensagem do dia para os corações solitários, acompanhados, quentes e frios, calmos e impulsivos. Mas só para os grandes. Para os pequenos não.

10.2.06

Gay Pride



Guardem os cristais e as porcelanas.
Ela está de volta e com três Grammy nos... no decote.

Madonna pode fazer os melhores alongamentos, mas Mariah tem a laringe mais temível do planeta Terra.

Isto & Aquilo


Lotus, Lee Krasner, 1972

"Hoje somos todos dinamarqueses"





Eu sei que existe todo um complexo socio-cultural, que estas situações não podem ser vistas a preto-e-branco, etc.
Mas não, não deve haver limites para a liberdade de expressão. Não deve haver limites para a liberdade, ponto. Não há limites para a estupidez e para o mau-gosto, é certo. E não há limites para o fanatismo, infelizmente.

Se uma parte se revela ‘tolerante’ e ‘moderada’ quer com isso dizer que se mostra civilizacionalmente superior face à parte ‘lesada’, ou, simplesmente, que se borra de medo, negando valores conquistados ao longo de séculos e à custa de tantas vítimas? É o típico prato ocidental: filet de arrogância, em molho de cobardia . Mas que raio há aqui a 'tolerar'?...

Se o meu chefe me ofende, devo rasgar-lhe a caródita em retaliação? Hum... é melhor não. Por razões funcionais, meramente: ele detém o poder, eu perdia o meu sustento e seria difícil escapar à choldra. Mas, se calhar... noutro espaço, com um bom séquito ou simples companheiros de ocasião, até se podia pôr o gajo num pneu. Seria questão de transmitir o entusiasmo necessário.
Do pensamento (e do que por ele possa passar) à acção vai um oceano que delimita a consciência humana da barbárie mais vil. Não há qualquer água a colocar no flambé islamofascista. Não se devia sequer invocar a santa liberdade de expressão em vão! E quanto a complexos, estes pirómanos já incineraram o socio-cultural e bem gostariam de arrasar tudo o que lhes desse na gana: fauna e flora, físico e metafísico, vivo ou morto.

Sirva-se aqui, não o filet, mas a arrogância ocidental inteira, animal e viva.

Que outra defesa senão esta: livre expressão!

(Leia-se o artigo de Jeff Jacoby no The Boston Globe)

Picardias na casa branca



Pede-se aos sofistas parlamentares que deixem de arrotar postas de pescada com molho à espanhola sobre assuntos que nada trazem de novo e se debrucem sobre o estado da nação. Enquanto Alegre e companhia se dedicam ao jogo do "toma, toma!" em torno da liberdade de expressão, de culto e de tudo o que venha a talhe de foice (salvo seja, são 14 assentos), exemplificando o mais primário estado de desunificação e inconsistência, a vida continua, neste pedaço de tábua carunchosa que navega sem rumo por águas europeias. A manter-se o figurino teremos a populaça a destruir a Assembleia da República para consertar os casebres com os democráticos tijolos. Se não ligarem à terra o quanto antes, um dia veremos os senhores deputados a deliberar sobre o eminente ataque dos sarracenos e a exigir estado de sítio profiláctico no Martim Moniz. Debrucem-se, debrucem-se, senhores, não vai mudar nada, mas pelo menos fingem que justificam esses chorudos ordenados.

9.2.06

Deus Cansou-se de Nós



Infelizmente existem casos de perseguição demente muito mais graves do que a fantochada tão divulgada nas últimas semanas. Dentro de portas, contra crianças. Este é no Sudão mas podia ser noutro ponto do globo, contextualizado por outras crenças quaisquer. God Grew Tired of Us recebeu dois prémios no Festival de Sundance e parece ser um documentário poderoso e honesto. Tem ganho os seus seguidores e tudo indica que o iremos ver por cá. Para já, um cartaz lindíssimo e um dos títulos mais pungentes e verdadeiros que tenho visto.
Para saber mais, cliquem no título.

Dinamarca...



...depois do 747.

Há porcos em Marte



Esta estranha máscara foi fotografada pela sonda Mars Global Surveyer na superfície do planeta vermelho. Pode ser um adereço de "O Planeta dos Macacos", versão Tim Burton - o que se faz para esconder as provas -, o fato de Darth Vader (e com sorte George Lucas lá enterrado com ele), o Bobi fossilizado da Dona Preciosa, habitante do Entroncamento, que fugiu de casa um dia atrás de uma Tareca; pode ser Deus em visita informal, pode ser uma das bizarrias da sociedade depois de nova plástica na clínica intergaláctica do Dr. Ivo Pitanguy; pode ser pau, pedra, o fim do caminho, Dr. StrangePork, Elvis, Joan Collins, o chimpanzé Bubbles, o grande irmão, Zventibold Szvatopluk, Ana Salazar - aquele fogoso cabelo de cydiana sempiterna... Pode também não ser Marte e, inclusivamente, não ser uma máscara. Clique no link acima e saiba tudo o que nunca quis saber sobre o dito planeta. Incluindo a explicação da figureta.

Isto & Aquilo


Vida Urbana, Cristiano Burmester, 2005

8.2.06

Looking for Comedy in the Muslim World


Boa sorte, pá. Estou certo de que, à sua maneira...

Excesso de confiança

Rasul-al-lah Superstar



Embora não sejam permitidas personificações do Profeta, estou convicto de que uma grandiosa co-produção internacional, dirigida por Elia Suleiman e Franco Zeffirelli, com textos do Corão musicados por Andrew Lloyd Webber, protagonizada por Shah Rukh Khan, com um guarda-roupa vistoso, cenários grandiosos e um score de Vangelis e Cheb Khaled, para rematar o arrebatamento, poriam fim a séculos de desarmonia e incompreensão. Se Jesus Cristo brilhou na tela e fez melhor serviço pela Igreja como poster boy do que décadas de pregação, por que razão o Islão iria rejeitar um faustoso espectáculo celebratório de Maomé? Popularidade, merchandising, Broadway, West End, Pavilhão Atlântico... Não tarda nada eramos todos amigos!
Se esta malta não fosse tão picuinhas com o luxo e a iconografia. Chatice. Se calhar com o tempo...

Caíram cavacos de neve


Estas pessoas de aparência patusca, armadas de gélida determinação, votaram em Cavaco Silva. 29 de Janeiro de 2006 foi um dia de comemoração e de profundo simbolismo: o do dinamismo social, económico, político e cultural que os próximos anos trarão. Estas pessoas levaram uma grande banhada de cavacos de neve e mostram-se inamovíveis na sua convicção. Há que respeitar.

Isto & Aquilo



Another Day, Molly Johnson

The beauty of the soul with the oppressive circumstance


"Wear it like a banner
For the Proud -
Not like a shroud"

(Langston Hughes, de Color, 1943)

7.2.06

Isto & Aquilo


American Prayer, Gottfried Helwein, 2000

Somersault



Sinopse do filme australiano, em 22 linhas:

Rapariga libidinosa filha de mãe licenciosa apanhada na reinação com o namorado da respectiva foge de casa e procura refúgio longe, fornica com meio mundo e faz amizade com pessoas deprimidas agindo como uma parvinha e comendo junk food na bomba de gasolina onde trabalha, entretanto conhece um rapaz confuso mas arrebatador e os dois ficam confusos e olham muito para o vazio, ela corre à beira do lago com luvas vermelhas e ele corre para o trabalho de que não gosta e amam-se e repelem-se e há dúvidas e ela faz disparates e ele já não a quer mas no final ela já não o quer a ele, e todo o mal é perdoado, porque ela é uma menina triste e confusa e ele também é um rapaz confuso e estão todo muito baralhados mas optimistas, a menina é loura e tem o nariz arrebitado e um rabinho redondinho e ele também não está nada mal e há sempre uma luz escura e triste e muitos lagos e árvores e música minimal. Fim.

SONAE vs PT



(Prestando atenção consegue ver-se Belmiro, no barquinho, a dar instruções)

Hostile Takeover, Pieter Bruegel, o Velho.

3.2.06

Diva extemporânea


Natália, you hot mama! Fazes falta no panorama artístico português. Serias agora coberta de glória, aquela que te escapou enquanto, na obscuridade, tentavas galhardamente acertar nas notas. Agora sim, Portugal estaria pronto para te receber e transformar no animal social que adornaria capas de revista, protagonizaria reality shows e sketches humorísticos. Irias às festas, darte-iam relógios, roupas e perfumes, serias a estrela de galas e de episódios rocambolescos e excitantes. Todos falariam de ti! Farias um valente pé de meia, Nati, junto dos feirantes do sucesso. E uma coisa é certa, nenhuma voz se ouviria tão estridentemente, nem a de José Castelo Branco empalado por um grosso varapau de marmeleiro n' O Bordel das Celebridades.

Quando o urso separou o casal de esquilos





Para Flapi. Love ya.

Isto & Aquilo



Pursuit of Happiness, Weekend Players

Isto & Aquilo




Perishable Fruit, Patty Larkin

Ava



Temos saudades tuas, miúda.

1.2.06

Mnemónica




"Depression patients should realize that depression is a chronic illness just like diabetes or asthma. Most cases of depression are caused by a chemical imbalance in the brain.

People experiencing depression feel hopeless. They may have feelings of worthlessness and experience a loss of interest in every-day activities such as work, hobbies or physical intimacy.

Many factors can trigger depression such as: being out of work, serious illness, divorce, flunking out of school, loss of a loved one. Sometimes there is no apparent factor that triggers a depression.

Fortunately, depression is a highly treatable condition. If you are diagnosed with depression and you take the medications that your doctor prescribes, there is an excellent chance that your depression will fade away, like a bad dream.

Scientific studies have determined that antidepressants work best when they are combined with counseling, such as seeing a psychiatrist, psychologist, social worker or other health professional on a regular basis.

It is essential that depressed people who are on medication do not discontinue taking their medication even when they feel great. You need to take your medications religiously every day regardless of how you feel.

If you discontinue taking your medications without the advice and approval of your doctor, there is a good chance that you will fall into a tailspin and become depressed again, possibly severely, and the medicines may take longer to work.

Antidepressants are powerful drugs and should never be taken without a doctor's prescription. You don't want to self treat depression (even if you are a doctor) because the consequences could be disastrous.

How can drugs help depression?

The brain communicates with itself through the use of special chemicals called neurotransmitters such as "serotonin" and "norepinephrine".

There is a strong correlation between the amount of these chemicals in the brain and a person's mood. If levels of these chemicals get too low people feel depressed. Doctors elevate these brain chemicals with the use of drugs.

There are many different families of antidepressants available today. The two most common groups are:

- SSRI's (Selective Serotonin Reuptake Inhibitors) These drugs increase the brain's level of serotonin, thus improving mood. SSRI's have also been shown to be useful in the treatment of obsessive-compulsive disorder and some forms of severe shyness.

These drugs come with strong warnings regarding their use in children. There is data to suggest that occasionally when kids take SSRI's some of them engage in self destructive thoughts.

However, many times the benefits of giving your child a SSRI far outweigh the possible side effects. That is a decision for you and your doctor.

They are generally well tolerated and effective. Some common SSRI side effects include: heartburn and drowsiness. They can sometimes produce a transient loss of appetite. SSRI medications can have drug interactions. You should consult with your doctor or pharmacist prior to mixing them with other medications.

- Tricyclic Antidepressants get their name from their chemical structure. This class of drugs is very effective in combating depression but is associated with troublesome side effects such as drowsiness, dry mouth and constipation.

Tricyclic antidepressant medications can have drug interactions. You should consult with your doctor or pharmacist prior to mixing them with other medications.

Other families of antidepressant drugs include the MAOI's (monoamine oxidase Inhibitors). MAOI's are very effective but have potentially life-threatening drug interactions and food interactions. If you are taking a MAOI drug, it is important that you consult with your doctor before you take any other medicines. Your doctor will also tell you which foods to avoid mixing with your medicine."

Boicote radical




Este gajo é mais assustador do que o Ronald MacDonald, o Marques Mendes e o alien do Giger todos juntos. E há malta que paga para ver exibições de histrionismo nos circos que montam para este meia-leca artolas protagonizar. Antes comer uma fartura e dois churros recheados e entupir as tripas de colesterol. Pegava no Tonto e na sua eguazinha inseminada, obrigava-os a ouvir toda a trampa escrita pelo marado do Hubbard recitada pela Natália de Andrade, presos a uma cadeira em pau santo entalhado, alimentados a Nardil, Zoloft, e o ocasional diazepam, empurrados por uma garrafa de Moët et Chandon para não aniquilar o glamour.
Odeio o Tom Cruise! É um post mais irrelevante do que o habitual, mas pronto. Está dito.

Billy Boy



Contrariamente ao que possa parecer, Bill Gates não esconde um passado obscuro de drogas, sexo e libações rituais, com a habitual carnificina à mistura. Billy usou todas as suas energias para limpar a Microsoft dos seus companheiros de seita, tornou-se Imperador dos Sistemas Operativos, candidato a dono do mundo e notável filantropo. Ser nerd compensa, toda a gente sabe.

Uma obsessão...


... é apenas um objectivo demasiado intenso.

Como vai ser?


Como vai ser nos dias em que não me queiras ver, não me queiras sentir, ouvir, tocar. Não me queiras deixar aproximar. Não me queiras por perto, agora, subitamente para sempre. Como vai ser na fraqueza e na desilusão? Quando poderei contar que dês um pontapé no balde e invoques a razão pura, para tua cobarde e intransmisível justificação? Quanto tempo duraria um segredo e quanto tempo duraria uma vergonha que conheceu tão íntimos segredos? Como se lobotomiza a emoção se ela se deu a conhecer ou, se não é amor, como se detecta a infecção? Nos dias de luta, alguns de luto, nos dias de sempre, nas noites cansadas de por isto e por aquilo. Como vai ser? Nas luas, nas fases... Nos dias em que reconheças o monstro, em que te revejas na vítima... No teu aniversário, na nossa riqueza sombria, à saída do cinema, consolados num equívoco... No dia em que tiveres certeza de que tens certezas, não me queiras. Nesse dia de mórbida auto-consolação, nesse dia de pequenas infâmias, pequenas patetices, pequenas pegadas desde o porão, não me queiras para te ouvir. Como vai ser? Envias um ofício com aviso de recepção?
Diz-me como será no dia em que não me vais querer, para que te diga já que não te quero. Nem a ti, nem a ninguém.

Crash


Ontem à noite um senhor atirou-me violentamente contra um carro. Um senhor preto.
Acabei por não saber o que o senhor pretendia, mas rosnou algumas incongruências num português semi-críptico e com um sotaque familiar. Ameaçou-me, disso estou certo, mas não me roubou. Apenas me manteve preso ao carro enquanto me agarrava pelo pescoço. Pude reparar que vários piercings lhe adornavam as beiças, as orelhas, o nariz, enfim, a tromba em geral. Era tarde, a viela escura, como convém, e um senhor preto, de 1,85, com braços possantes, mantinha-me encostado a um carro enquanto o seu instinto animal lhe ditava se havia de sacar da naifa ou não. Não me lembro de ter tido alguma reacção particular. Não senti nada naquele momento, mas o sobrolho manteve-se levantado. Se o senhor preto quisesse espetar-me, não havia nada que eu pudesse fazer, nem contra a sua determinação nem contra o cavalo que lhe boiava no sangue. Ouvia-o grunhir e, a dada altura, um compincha que surgiu da sombra fê-lo largar-me. Avancei determinado em direcção à avenida iluminada e só então o meu coração falhou uma batida. Não tive uma reacção interiormente pacífica, porém. Se um gajo me empurra à bruta contra um carro no meio da rua, me segura pelo pescoço e considera a hipótese de me aleijar seriamente… Só porque quer e pode… Se fosse baixinho se calhar não podia. Se fosse um chinês enfezado também não. Se fosse um junkie branco macilento talvez não houvesse história.
Bom, chamem-me politicamente incorrecto, mas eu quero, e posso, chamar-lhe senhor preto de merda.

28.1.06

Espectro que sim



Estás espantado por não haver vida depois da morte - disse Deus.
Também não existia vida antes do nascimento e alguma vez te interrogaste sobre isso?

Alguém te garante que, aqui e agora, a vida te tenha sido dada? Um destino? Um propósito? Tens mesmo a certeza de que cumpres um trajecto? Se eu te disser que nem o que dás por certo é uma certeza mas sim uma equação mal resolvida...
Eu? Estou demasiado ocupado a desenvolver o acaso. A perfeição vem com a prática.

Deus sorriu com sarcasmo, como não é suposto Deus sorrir. Aí lhe detectei algum sentido de humor.

Até amanhã, camaradas



George Clooney merece todo o respeito que lhe queiramos dar. Pagou do seu bolso um filme de 7 milhões de dólares, a preto-e-branco, sem estrelas (o próprio Clooney desempenha um papel secundário, porque os co-produtores exigiram que desse a cara), sobre o homem que deu a estocada final no reinado de McCarthy e seus esbirros. Um filme de mensagem e de missão, numa contemporaneidade povoada por eminências pardas ancoradas em fantoches institucionais. Numa altura em que os destinos do mundo são verbalizados por um ser com o QI (e o mesmo impulso belicoso) do Pato Dónale do Zé Manel ventríloquo, Clooney questiona um dos direitos tidos como inalienáveis, propagandeado até à náusea, pela grande nação americana: a liberdade de expressão. Mr. George "puts his money where his mouth is". Aliás, consta que tem feito uns anúncios a cafés brasileiros e a maltes japoneses para repor a ordem nas suas finanças e investir em novos projectos. Esperam-se mais desafios às convenções.

Tudo no seu devido lugar


 As livrarias não têm de se parecer com lojas de aparelhos electrónicos , não têm de servir café e bolos. As pessoas não vão lá comer doughnuts nem ouvir a cacofonia do estendal de aparelhómetros - as pessoas vão lá buscar livros, porque nos livros encontra-se aquilo que a vida não tem: uma pequena possibilidade de justiça. Para ler não tenho de possuir outras coisas, tenho de desejar um livro. Para ser escritor não tenho que ser bonito nem interessante nem proprietário de um iPod, tenho que ser capaz de escrever.
(A propósito de Dorothy Allison e d' O elogio dos livros como sempre foram)

Gente feliz


Bem-aventurados os que sabem rir de si próprios, porque nunca deixarão de se divertir.

Natureza humana


The Woodsman (“O Condenado”) é um dos filmes mais violentos a passar pelo circuito comercial nos últimos anos e seguramente um dos mais complexos desde Dead Man Walking. Uma violência interior e subentendida, graças à abordagem cruamente alegórica da realizadora Nicole Kassell. Aquilo que poderia ter-se transformado num desastrado conto de fadas virado do avesso é, em vez disso, a realidade angustiante de um homem em busca de uma redenção impossível. Um universo torturado onde encontra potencial destruidor ao virar de cada esquina. Como diz a personagem de Mos Def (numa interpretação irrepreensível): “Neste mundo não há lenhadores”. Vendo o filme percebe-se porquê. Kevin Bacon, no que é mais um estudo doloroso do que um desempenho, é o homem vestido de lobo, dilacerante e dilacerado. Não aconselhável a toda a gente, The Woodsman vale, também, pela coragem de nunca fugir ao assunto que decidiu abordar.

25.1.06

Metafísica



"Beckett: It's a beautiful day, isn't it?
The friend: Yes... It makes one glad to be alive, doesn't it?
Beckett: Oh! No, I wouldn't go that far..."

Peca, jovem, peca



A doutrina do Pecado Original:

Todos somos e nascemos pecadores, excepto Jesus que é perfeito. Se não pecássemos éramos salvos para quê? Continuamos a pecar para sermos salvos para irmos para o Céu. É o Cristianismo. É por isso que é tão popular. Nas camadas mais jovens começa a categorizar-se como freak pop e já deu origem a um movimento que troca o ideal de discrição pelo fashionismo teológico. Estes jovens não procuram a redenção a todo o custo porque já perceberam que ela sai de graça. Pecam, mas não sofrem com isso. A culpa está a deixar de ser o dízimo. O pecado é bom e é barato.

Try Not To


Há dias em que sinto perto demasiados fósforos acesos, isqueiros, fagulhas, ameaças, sentenças, pressões, juízos, balelas, palermas, caldeirões nas brasas dos abusos e das indecências. Demasiado perto. Demasiados.

Só não vejo uma tocha que nos ilumine.

24.1.06

Confúcio era um coelhinho azul


...E pouco a pouco aprendi que não é mesmo preciso matar mosquitos com um canhão.

Princesas


Vou a caminho. Que longa viagem, esta!

I feel loved



"It´s the dark night of my soul
and temptation's taking hold
but through the pain and suffering
through the heartache and trembling
I feel loved
I feel loved
As the darkness closes in
in my head I hear whispering
questioning and beckoning
but I'm not taken in
I feel loved
I feel loved
From the depths of my emptiness
comes a feeling of inner bliss
I feel wanted, I feel desired
I can feel my soul on fire
I feel loved
I feel loved."

Depeche Mode

23.1.06

Repulsa



Um verdadeiro conto de imoralidade. Inclemente, daqueles que não pestanejam e não mostram remorsos. Quase tão frio quanto o ambiente que caracteriza, tão cruel quanto as personagens que o habitam. Os desígnios compulsivos da mentira, da ambição e da vaidade... A maior proeza de Match Point não é devolver vitalidade à obra do velho realizador (nem a mestria havia desaparecido por completo, nem este filme é uma obra-prima), é ilustrar, com o xizato na mão, a monstruosidade vazia e circunstancial com que coabitamos. Woody Allen, o buffoon, corta a sangue-frio as nossas frágeis convenções de moralidade, sem risos de ocasião. Este jogo está fora do nosso controlo, está à nossa volta e é incomodamente familiar.
Como me disse o Paulo: “Gostava de ver a cara de certas pessoas ao saírem deste filme”. Sem cara, provavelmente.

20.1.06

Filosofia



Está toda aqui.

Desbotados


The Economist prevê para 2006 o maior défice orçamental entre os países da UE:

Portugal com o pior crescimento do mundo.

Défice orçamental atingirá os 5% em 2006.

Peso excessivo do Estado abafa a capacidade de iniciativa dos cidadãos e das empresas.
Aumento da pressão fiscal reduz a competitividade das empresas.
Rigidez da legislação laboral agrava o desemprego.
Portugal está na cauda da Europa e do Mundo tanto ao nível do equilíbrio das finanças públicas como do crescimento económico.

A revista “O Mundo em 2006”, edição conjunta “Vida Económica”/The Economist, estima que, com um crescimento de 1%, Portugal terá no próximo ano o pior desempenho entre o conjunto de 66 países dos cinco continentes analisados pela Economist Intelligence Unit e vai registar o maior défice orçamental entre os países da União Europeia.Enquanto a vizinha Espanha cresce a bom ritmo, aproximando-se do ritmo de desenvolvimento da Irlanda e dos países do Norte da Europa, Portugal vai perdendo terreno. Os países do alargamento também estão a crescer depressa. A Estónia e a Letónia vão atingir um crescimento de mais de 6% do PIB.Nesta edição especial “O Mundo em 2006”, vários líderes nacionais comentam as tendências para o próximo ano. Para António Carrapatoso, presidente da Vodafone, os males de Portugal são “crónicos e estruturais”, surgindo enraizados na forma como “a nossa sociedade funciona e está estruturada”. “A rigidez da legislação laboral retira oportunidades aos desempregados e dá os incentivos errados aos empregados, para além de não estimular o investimento e a criação de empresas”, diz António Carrapatoso.Este gestor afirma também que o Estado tem um peso excessivo na economia e que, em 2006, se deveria começar por melhorar o actual sistema de incentivos e de responsabilização.

Limpa-te aqui


Como pontificou o nosso estimado Vieira da Silva, Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, em dez anos deixará de haver reformas em Portugal. Causa para preocupação? Talvez, se pensarmos que continuamos a investir a fundo perdido na implacável SS. Aliás, no gabinete ocupado por este homem com a sensibilidade de um Dr. Mengele, urdem-se planos para levar os portugueses ao AVC, ao enfarte, à exaustão e à mais variada gama de úlceras, antes dos 65 anos. Por essa altura, como também já não existirá sistema público de saúde (aproveitem enquanto podem, mas sempre com fractura exposta, senão…) e a generalidade do povo anda a ração, a malta quina ou já quinou, a SS lambe os dedos e o Bono vai andar por aí com uns companheiros a apelar ao perdão da dívida pública portuguesa. No fundo, há que aproveitar o dia e fazer de conta que os ministros só dizem tonterias – a 2ª parte pelo menos não é difícil. Recentemente em Barcelona, reparei que os autocarros e alguns outdoors publicitavam uma campanha da Renova, que oferecia um ano inteiro de segurança social. Os espanhóis têm o conforto de uns lencinhos ou de um macio rolo de papel higiénico. O nosso Estado, vigilante, coloca ao dispor do freguês um modelito mais austero.

La démocratie, c'est moi!

Não vou votar. Pela primeira vez não vou votar. Não é correcto, não creio que seja sequer uma atitude defensável. Se é um direito adquirido à custa do sacrifício de muitos, exerça-se por favor o dever herdado. Que sei eu, que já nasci embalado pela democracia. Posso questionar, no entanto. Posso dizer que estou adoentado e me custa deslocar à terra natal. Não tenho culpa se a perversidade congénita das sociedades humanas fez das suas durante séculos. Sou um pequeno germe democrático que acredita nas obrigações cívicas, em piloto automático. Talvez necessitemos que a democracia nos seja dada em forma de cápsula, com aminoácidos essenciais, vitaminas e sais minerais. Ou mesmo em carteirinhas de pó efervescente com aroma a laranja. O que me leva a pensar que o primeiro grande passo democrático de 2006 vai ter o valor nutritivo de um Sunny Delight - com todo o açúcar a que temos direito.
Entre um bode velho e desorientado, que converteu a demagogia num tesouro nacional, um poeta-alegre de intenções menos líricas, um liberal de esquerda com síndrome de Tourette (de vez em quando sai-lhe o que realmente pensa), o bom do Jerónimo e o gajo que fez do seu nome um -ismo e o cravou na memória curta dos portugueses... É incrível como os cavacos se transformam em boomerangs redentores. Alguém é capaz de me situar?
Não vou votar. Pronto. Protestar? Deixa-me ligar a PlayStation.
Faço minhas as palavras de Mãozinha, que, há uns anos, cantava:
"Eu sou da geração que perdeu o interesse."

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