30.11.12

Hard copy 66


Ora aqui está um caso sério de boa publicidade. O tipo de comunicação sofisticada que só um gestor de eleição poderia produzir, depois de deglutir o belo naco do cachaço, exactamente entre um reconfortante peido neoliberal, a baba de camelo à casa e uma charutada a rematar, satisfeito por ter despachado a equipa de comunicação. Na agência (?) dizem-lhe que o seu arrojo sabe a maminha da alcatra e a coisa sai, espessa e retumbante, na net e e na imprensa escrita, deixando um inconfundível gosto a grossura. Se comprar o carro vou ter de lhe pendurar algures o poster desbotado de uma serrana mamalhuda, enquanto palito os dentes com a unhaca do mindinho. E vou parar forçosamente numa estação de serviço ribatejana para comprar um pack de cassetes de anedotas porcas e música ao (es)gosto popular, com as quais arruinarei o moderníssimo leitor de CD. Ao chegar a casa gravitarei como uma mosca para os pré-gravados da Casa dos Segredos, de modo a não perder os melhores momentos de pintelheira a passar de boca em boca, revendo-me no desafio épico da articulação verbal e sentindo vibrar em mim o mesmo ADN bovino. Tudo para estar à altura desta carrinha. Quem diria que uma simples frase seria capaz de tanto?

20.11.12

Hard copy 65


A TDM é uma empresa estatal moçambicana. O que faz disto um anúncio institucional. Provavelmente foi encomendado a uma agência. Embora, institucional ou não, com ou sem "profissionais" contratados, não fizesse qualquer diferença. São tantas e tão boas as camada de mau que até se torna redundante satirizá-las. Mas se pensarmos que esta realidade pode ser a nossa num futuro próximo... 

P.S. Acordo Ortográfico. Pois com certeza.

Artemildo e o sangue do dragão



Não existe muita informação na net sobre o sangue de dragão, maravilhosa seiva, dizem alguns, que corre com a bicharada toda do organismo, desinfectando, cicatrizando, regenerando e inúmeros outros gerúndios terapêuticos, só equiparáveis à acção dos glutões na roupa porca. Mas isto vem de uma árvore, por isso é coisa sem fosfatos nem surfactantes, a não ser que seja plantada na China, onde é de certeza alimentada pela central termoeléctrica mais próxima, ou para os lados da Calçada de Carriche. A informação que existe - de grande rigor científico, como se pode comprovar pelo excerto acima - garante benefícios mais ou menos aleatórios para as entranhas e os tecidos, mas até se provar que uma substância usada para enfatizar rituais satânicos e dar cheiro a fantasias góticas (duas visões do inferno, portanto) converge para o bem-estar global, prefiro continuar a roer cenas fibrosas, de cor escura e com sabor a terra molhada, que não tenham sido aconselhadas pelo farmacêutico Artemildo.

16.11.12

Bestas


Quem, incauto, lesse o Jornal de Negócios de ontem – como eu, que não vi nem li nada previamente e o apanhei no trabalho –, ficaria inclinado a pensar que Isabel Choné é uma mártir (apesar de, aparentemente, apenas um corropio melindrado de tias e tios ter tomado a sua defesa, o que dificulta a empatia) e que os acontecimentos frente à Assembleia da República, em dia de Greve Geral, se reduziram à actuação de um grupo de celerados que foram valentemente rechaçados por uma polícia que demonstrou notável contenção perante uma violência brutal. Por acaso, verificou-se que a dita intervenção foi essencialmente uma retaliação raivosa e indiscriminada. Não será legítimo pedir estoicismo a indivíduos agredidos sem apelo nem agravo durante mais de uma hora. Não. Mas é por isso que são “agentes da autoridade”, treinados, comandados e (mal) pagos para analisar as situações e agir coordenadamente, com discernimento e estratégia. Para dar cacetadas a torto e a direito, com o cérebro toldado pela adrenalina, as frustrações e os recessos sortidos do subconsciente, qualquer barrasco serve. Apesar de cada vez evoluir mais nesse sentido, a realidade social ainda não é uma experiência de Milgram colectiva. Não é um reality show, onde se fabricam conflitos para entretenimento de audiências dessensibilizadas. É o agora e o depois com um nível de responsabilização e consciência que nunca como hoje foi tão agudo em democracia. E no entanto houve criaturas que avaliaram a situação escrevendo (numa crónica com o alcandorado título de "Não passarão!"): “(…) A legitimidade para decidir a nossa vida colectiva está ali [no Parlamento]. Não está na rua. (…) Em Democracia, o poder não se dita a partir da rua.” Claro que não. Porque enquanto ficas com a peida sentadinha a cagar postas ridículas, vives a tua democracia a ser enganado, roubado, enxovalhado, desrespeitado como indivíduo e cidadão, sujeito a toda a espécie de imposições anti-democráticas, com o intuito já pouco disfarçado de aniquilar as estruturas básicas do país e de hipotecar qualquer possível reabilitação futura, vendo a mentira e a corrupção institucionalizarem-se e serem sancionadas pelos próprios “representantes” que a deveriam combater, confrontado com toda a espécie de assimetrias abjectas alimentadas com a carcaça dos desfavorecidos, tendo conhecimento diário das acções e comentários de uma corja avessa à honestidade, ao pudor e à eficácia, que não raras vezes deixa escapar um arroto gordo de auto-satisfação e de profundo desprezo pelas 15 pessoas que saíram à rua na altura devida para, porventura, a eleger. Como recompensa, porque não contribuíste para a concentração – e tiveste a sorte de não ir a passar por acaso –, evitas uma porradona da bófia e moves o teu pescoço naturlamente inerte em aprovação das palavras firmes e hirtas de Miguel Macedo, o Estudante Pálido desta farsa.
Os sicários, profissionais ou não, que despoletaram aquela desastrosa reacção, não eram um exército, não tinham um plano diabólico e meticulosamente traçado para rebentar com o Parlamento, não eram uma ameaça intransponível nem estavam infiltrados clinicamente entre os manifestantes. Podemos apenas imaginar o que seria se estivessem, e que tipo de reacção iriam então originar nas entidades encarregadas de garantir a ordem pública.
A cadeia de comando de tudo isto não está na rua, pois não, isso com certeza. E os criminosos que atiram pedras talvez merecessem outra avaliação se escolhessem devidamente os seus alvos. Do mesmo modo que os senhores polícias, ao investir na direcção exactamente oposta, poderiam
contribuir com a punição de alguns criminosos, esses sim organizados e de alto calibre. Acontecendo o que aconteceu, estão ambos do mesmo lado da barricada. O das bestas.

Ilustração: "Democracy", Janusz Kapusta

15.11.12

O Slogan Recalcitrante 3

 
Pérolas esquecidas nos lineares de supermercado. Um encontro fortuito com a arte de criar claims, à procura de uma refeição de preparação rápida, económica e - esperança vã - saudável. A riqueza polissémica, a equilibrada escolha lexical e o reaproveitamento picaresco da coloquialidade, sintetizados numa homenagem franga à idiomaticidade - interpretada a gosto, visto encontrar-se numa embalagem de hambúrgueres de peru.

Na sequência de outros ensaios já postados, proponho-me adoptar tentativamente os mesmos critérios no rebranding de marcas interessadas em afirmar o seu carácter nacional. Não sei que marca gostaria hoje de afirmar o seu carácter nacional, mas deixo isso ao critério de indivíduos com conhecimentos profundos de secretaria.

Por exemplo, uma marca no mesmo segmento de negócio, mas com as carnes vermelhas por foco - imaginemos, Porquivaca - poderia ostentar algo como:

© 

Do mesmo modo, uma empresa distribuidora de peixe congelado - Peixófrio -, beneficiaria de uma releitura deste tipo, valorizando o espectro temporal de conservação:

©

 Se é que me faço entender.

(Com o inestimável contributo estético de Filomena L.)

31.10.12

Waiting for the sun


For Pasi, who was caught in a hurricane.


















 Ilustração: Geoff McFetridge

A vez dos sul-coreanos


Aí está o poster para o primeiro filme em língua inglesa de Park Chan-wook, o thriller psicológico Stoker. Não sei se será boa ou má notícia para os admiradores de Oldboy (que, por sinal, está a ser alvo de remake por Spike Lee, com Josh Brolin a retomar o papel de Choi Min-sik). O cartaz tem bom ar e parece indiciar que não estamos perante a típica chouriçada formular e previsível de Hollywood. O historial de realizadores "importados" é longo, mas, muitas vezes, o desajuste de sensibilidades e referenciais com a realidade mercantil dos estúdios norte-americanos leva a tremendos desastres, como ilustram os casos mais recentes de Killing Me Softly (Chen Kaige), The Invasion (Oliver Hirschbiegel), ou The Tourist (Florian Henckel von Donnersmarck). Alien: Resurrection, por exemplo, deixou uma mancha na saga e nunca saberemos se tal se deveu ao facto de a 20th Century Fox ter restringido agressivamente o controlo criativo de Jean-Pierre Jeunet, arredando-o posteriormente da pós-produção, ou se o universo de Jeunet simplesmente não se coadunava com o imaginário da série iniciada por Ridley Scott. Curiosamente, Stoker é produzido pela Scott Free, dos irmãos Ridley e Tony Scott, recentemente falecido. A ver vamos.

Portugal, os foristas, a saúde mental e o apocalipse

Na sequência desta impagável série, avanço com mais umas amostras edificantes de uma publicação que leva muito a sério a sua imagem, moderando escrupulosamente os comentários postados (é o termo) pela grossa (é o termo) maioria dos seus leitores (será o termo?).




























Activia


Saiu disparado.

Curioso. E profético. "Pelejão" rima com "sou um grande cagalhão e gosto de bater punhetas ao patrão ". Não sei porquê, passou-me pelo espírito. Não é poesia, não é prosa fina, mas tinha de sair. E já não tenho a barriga inchada.

30.10.12

Susan says


"Genius is the ability to stay in an uncomfortable situation the longest."

Li esta frase numa entrevista com essa mulheraça intemporal que é a Susan Sarandon - dotes artísticos inclusos - e senti-me reconfortado. Estou longe do engenho mas pelo menos fico com uma sensação de propósito.

Ilustração: Ben Newman

29.10.12

Sai um pastelinho pela Europa


Os verdadeiros obreiros da paz.

Ah, o Nobel da Paz. Esse notável prémio de feira pré-combinado. Que delícia. A porreiraça da Europa, unida, solidária e com um grande futuro apaziguador. O que se seguirá? O pastel de nata, senhores? A contribuição do pastel de nata para a harmonia universal? Pois já alguém viu um indivíduo agredir outro com um pastel de nata na boca? Ou imediatamente antes de devorar um pastel de nata? Ou logo a seguir? E alguma vez se viu alguém desperdiçar pastéis de nata nas ventas de um paspalho qualquer? Ele há tartes, ovos, gelatina, a ocasional mousse, legumes variados… Pastel de nata, não, pois não? E ele há alguém que NÃO GOSTE de um pastelinho de nata acabado de fazer? Nobel com ele! Caraças, um milhão de euros vai dar para umas valente jantaradas sobre tratados de paz, rematados por dúzias de pastéis de nata. Estou ansioso por saber do que se lembrarão para o ano. Do IKEA? Do Padre Marcelo Rossi? Das pombas brancas? Do Durão Barroso? Se for enfiado num espeto com um pastel de nata na boca, o Nobel reganhará toda a sua relevância e credibilidade.

A rainha dos Olivais




Não ajudou muito nas arrumações e foi alheia ao comité de boas-vindas que levou, da porta de casa e ao 3º dia, a minha bela (e recém-adquirida) bicla amarela. Mas testou possibilidades de disposição interior, experimentou áreas de conforto e ensinou-nos como, e onde, apreciar o Sol. Acima de tudo, está bem em qualquer lugar. E é sempre boa companhia.

26.10.12

Há-des ver se o filme é bom


É reconfortante ver o trailer para um filme português no qual o protagonista profere algo como: "Ela sabia que iam haver consequências para as suas acções...". O cosmos parece dar-me razão. Até argumentistas pensam que o verbo haver sofreu uma mutação bizarra. Boas novas, amigos, este verbo escapou aos inúmeros estragos e continua a ser impessoal nas acepções de "existir" e "acontecer" ("Ela sabia que ia haver consequências por ter faltado às aulas"; "Ele não sabia que havia inúmeras gramáticas") e a concordar com o sujeito nas restantes (surgindo sempre como auxiliar - "Eles haveriam de, eventualmente, aprender a conjugar verbos"; "Elas hão-de conseguir escrever como se tivessem completado a 4ª classe"). Não creio que seja uma boa entrada em cena para um instrumento "de cultura". Ou de lazer. Ou lá do que for. Chiça, já me viram aquele cartaz?!

Só porque sim

25.10.12

O Homem do Trator

 

Um pequeno filme, terno e sincero, sobre "a urgência de viver", como o próprio realizador, Gonçalo Branco, referiu na introdução à audiência do doclisboa, ontem à noite na Culturgest. Despido, sem a pesada sombra da condescendência (por total oposição ao filme que se lhe seguiu), O Homem do Trator é um retrato - em poucas mas certeiras pinceladas - da resistência ao declínio físico num contexto onde a vitalidade e a robustez sempre foram um imperativo de sobrevivência. A teimosa luta contra o tempo, pela identificação e pela pertença, é espelhada na relação cúmplice do velho camponês com a vetusta máquina de guerra que ainda o acompanha em grande parte das tarefas. Em dezanove minutos é-nos dada a essência de um longo percurso calejado, onde uma câmara não intrusiva deixa o bonito e o feio acontecerem como são e não como o realizador gostaria que fossem. Um primeiro trabalho que revela uma série de opções maduras.

Roleta russa


"Life is like a box of chocolates. You never know what you're gonna get", dizia o tonto da aldeia naquele popular filme que glorificava a pacovice (um pouco como Regresso a Casa, documentário português que vimos ontem, mas isso são outros quinhentos). E se temos que dar o desconto ao atraso do gajo pelo facto de os rótulos poderem antecipar inúmeras surpresas, o que dizer quando nos colocam à frente chocolates destes? São ucranianos e pretensamente exóticos. Pelo menos é o que depreendo das cores garridas, do arco bizantino e daquele shemale com mãos de estivador que acabou de dar à costa em Lilliput. Mas quando um indivíduo se propõe afincar o dente em tamanho delírio, vira o produto e o rótulo transmite-lhe que a sua audácia deve dar em merda. À imagem de toda e qualquer iniciativa que agora se possa ter. Um mero chocolate ucraniano transporta, portanto, mais filosofia do que uma caixa de pralinés cosmopolitas. 

Para que conste, adiei a experiência por tempo indefinido. Tanto quanto se pode adiar a vida. De qualquer modo, desconheço a data de validade.

Suburban sexy 31


Cross-selling excêntrico, versão lusitana.

Arquivo do blogue