Realmente é difícil perceber se os candidatos à (nomeação à) presidência dos E.U.A. são realmente perfeitos atrasados mentais ou se estabelecem como objectivo dizer o maior número possível de alarvidades centopédicas, de forma a galvanizar uma população, que, é, na sua maioria (ao que ouvi dizer), perfeitamente atrasada mental. O que, de qualquer modo, é irrelevante. O partido republicano - seja lá o que isso for, porque piquenicão na
chavasqueira seria um enquadramento ideologicamente mais ajustado - detém uma vantagem ímpar neste aspecto. Entre as bestas cuspidas pelas vísceras da América para montar sem clemência a sua basculante constitucionalidade, contam-se os inesquecíveis Dan Quayle, Ronald Reagan, Dick Cheney e George W. Bush. Registe-se a mais recente azémola, de seu nome Todd Aiken, que promete superá-los por via de um "discurso" ecoando desde os mais profundos abismos da imbecilidade humana. A maior das bizarrias é que estes gajos, que aludem obsessivamente ao armagedão, são a prova de que o mundo acabou e que a iniquidade triunfou.
Sugestão para vitrinistas arrojado(a)s que queiram dar um toque de intelectualidade aos manequins, capitalizando na sua enigmática expressividade. O negócio de certeza que arrebita. É de evitar, porém, a estética Lynda Cartercirca anos 70, cruzada com o glum anoréctico dos 00s. Muito confuso.
É a única razão plausível para ter quebrado o voto de castidade a farinhas processadas, gorduras saturadas e açúcares refinados, e rasgado de supetão a minha veste de monástica devoção à alimentação natural. Foi, porventura, ao constatar a minha angústia face aos desafios profissionais que se avizinham - "A nova fórmula concentrada é ainda mais potente a eliminar o calcário e a gordura! E a um preço mais baixo!"-, ao fracasso em limpar a veia da cafeína -"Cagueiparaquempediualteraçõessefizeramalteraçõestêmdemeavisarprimeiroé sempreamesmamerdafoda-se!" - e ao profundo pesar em cumprir quarenta suados verões ao serviço da taberna lusitana - "A sério? Não parece nada que estás a entrar rápida e inexoralmente na meia-idade, virtualmente morto para o mercado de trabalho, que te encara como entidade obsoleta, reactiva e esbanjadora de recursos, e a ficar um gajo inconveniente e ausente para a família e genericamente desagradável aos olhos dos transeuntes e de alguns amigos!". Um pacote inteiro de bolachas Maria deglutido de rajada jaz agora nas minhas entranhas, a aguardar processamento. Ou foi para me fazer mexer, ou para me consolar, ou as duas coisas, que a Virgem interveio. Monossacarídeos! Glúten! Lactose! Banha de porco! O teu consolo, Maria, não será esquecido. Pelo menos enquanto esta azia durar.
Num pequeno reduto onde o espírito comunitário e o esforço colaborativo se manifestam com uma naturalidade que reacende a esperança (a aldeia de Cem Soldos,
às portas de Tomar), monta-se bienalmente uma festa que tem muito mais para oferecer do que a (boa) música que por lá passa - o festival BONS SONS. Tem o investimento activo da população, a diversidade dos visitantes, as propostas culturais paralelas e as causas que o motivam, parte delas profundamente investidas na comunidade. E tem uma atmosfera de ruralidade com brio, que se preza a si mesma e se dá aos outros com igual estima. Que o festival continue por muitos e bons anos a caminhar autonomamente e com o mesmo entusiasmo. É um exemplo raro de dedicação, rigor organizativo e capacidade mobilizadora. Ou então foi de qualquer cena marada que bebi.
O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, apresentou publicamente um livro intitulado A Crise Explicada às Crianças. Este tem a particularidade de ter "duas caras": dum lado uma capa de fundo azul com o conteúdo dirigido a - pasmem-se! - miúdos de direita, do outro uma capa vermelha dirigida a miúdos de esquerda. Lá dentro efabula-se com ilustrações dum urso gordo - o défice - e abelhas furiosas - os mercados. Imagina-se a bela moral da história, dirigida aos paizinhos semi-analfabetos e crédulos. Às crianças explicam-se os factos da vida metaforicamente, com recurso a abelhinhas, flores, ursinhos. A crise também se explica assim, pelos vistos. Às crianças do bibe vermelho, que são de esquerda e às do bibe azul, que são de direita.
Aos adultos já não é bem assim. Estes necessitam de explicações mais adequadas à sua idade, recorrendo a um imaginário mais maduro, explícito mesmo. Por isso sugiro esta publicação, com alegorias igualmente ilustradas, explicando a crise aos crescidos. Para aqueles adultos - de bibe vermelho ou azul – que ainda não perceberam bem como a hegemonia do poder financeiro anda a fecundar a cidadania e tudo o que apanha à frente. Como pronunciaria uma criancinha inocente: "metafodicamente", claro.
Para pior título em português recomendo:Trate a vida por tu, de Daniel Sá Nogueira. Dentro do género de livro de conselhos "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço".
Já em língua catalã, gosto particularmente do livro para crianças intitulado Collons, posa't a dormir!. O título começa exactamente pelo vocábulo equivalente ao português, seguido de algo como "toca a dormir!". Cada capítulo consta de uma ternurenta rima, à volta de um palavrão diferente.
De resto, livros para crianças sobre cocó, parecem ser um subgénero literário. E também é complicado escolher um título.
Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan em "As Neves de Kilimanjaro"
Uma lição de humanidade em forma de filme (ainda se usa o termo "lição" sem presunção ou demagogia?...). Simples, tocante, feito daqueles pormenores que me fazem sentir mal por não os conseguir (d)escrever e muito contente por ainda deixarem espíritos subtis oferecer-nos coisas destas. Talvez porque o filme seja francês; embora pudesse ser de qualquer lugar onde coração, sinceridade e ética fossem investidos numa narrativa que revela, por trás da mundanidade e das adversidades quotidianas, um mundo de motivações profundas e nobres que são, afinal, o verdadeiro sol dos dias.
Tudo isto faz ainda mais sentido quando, no dia em que vimos "As Neves de Kilimanjaro", falei com um amigo sobre este "país egoísta" (palavras dele, mas poderia ser "sociedade egoísta" ou "mundo egoísta"). De certa forma, esta história ilustra como este egoísmo - que nos parece, de forma condescendente, uma espécie de traço endógeno exponenciando-se fatalmente de geração em geração - é uma questão de opção. De opção ideológica e, acima de tudo, da opção por um profundo investimento pessoal na vida. Na nossa e na dos que nos rodeiam.
"As Neves de Kilimanjaro" (Les Neiges du Kilimandjaro, FRA, 2011), de Robert Guédidian; argumento de Robert Guédidian e Jean-Louis Milesi, baseado no poema "Les Pauvres Gens", de Victor Hugo; com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Marilyne Canto, Grégoire Leprince-Ringuet e Adrian Jolivet, entre outros.
Há muitos solstícios atrás, o meu irmão Pedro tinha pendurada na parede do quarto uma imagem - hoje icónica - de Nastassja Kinski a fazer uma pausa de beleza auxiliada por uma cobra pitão estrategicamente colocada. Um poster, se bem me lembro, tirado das páginas centrais da revista Première, porque o meu irmão era um moço culto e só consumia as centerfolds de revistas de cinema francesas. Tanto quanto sei. Enfim, as mesmas Première que eu recortava laboriosamente, e à socapa, para compilar um extenso e perfeitamente inútil portefólio de anúncios de automóveis. Os meus interesses então não eram muito alargados, pelo que, tirando carros, banda desenhada e batata cozida (segundo a minha avó, eu era "muito batateiro"), o mundo fechava cedo. Claro que, alguns anos mais tarde, quando me passou a retenção anal e comecei a aproveitar as fontes de conhecimento que havia em casa, amaldiçoei-me várias vezes por não conseguir ler até ao fim diversos artigos de cinema, sobretudo relativos ao Star Wars, assim como muitas pranchas do Michel Vaillant, barbaramente retalhadas. Alguns dos meus interesses mudaram - infelizmente continuam a não ser muitos, embora permaneça o grande batateiro que sempre fui - mas estou em crer que, ontem como hoje, iria preferir a Miss Piggy à Nastassja. Aqui fica uma singela homenagem à produção fotográfica de Richard Avedon em 1981, ao meu irmão, que nos veio visitar, e à beleza acetinada e intemporal de Miss Piggy, que faz da porcaria uma autêntica arma de sedução.
"(...) Meu amor por Alana não aceita essa simplicidade de coisa concluída, de casal para sempre, de vida sem segredo. Por trás desses olhos azuis há mais, no fundo das palavras e dos gemidos e dos silêncios alenta outro reino, respira outra Alana. Nunca lhe disse isso, gosto demasiado dela para despedaçar essa superfície de felicidade pela qual hão deslizado já tantos dias, tantos anos."
Julio Cortázar, excerto de "A Orientação dos Gatos" (retirado de Queremos tanto a Glenda), tradução adaptada