12.1.12

As Aventuras da Super-Rolha: O Ateliê Vai ao Basquete

Caras palavras


Vocês são muitas e tão boas, mas nem que vivesse 200 anos de intensa actividade coca-bichinhos vos conheceria todas. Em minha defesa tenho a dizer que algumas de vós simplesmente não têm o estofo necessário, por isso vos desdenho. 

Indivíduo de tal foi alvo de um ataque selvagíneo por parte dos seus pares.

Consigo antecipar um "quem?", e não é relativo ao tal indivíduo. 

Uma certa banda de rock teve uma actuacção silvática.

E nunca mais ninguém a (ou)viu. Tenho dito.

Cemitério de pianos






Com a Pudding Camera do Android, Matinha, Lisboa, Dezembro 2011

Suburban sexy 26

Uma notícia das entranhas

 Também será válido para os traques?...

Mais um artigo naquele tom levezinho e incongruente de quem precisa de encher chouriços com muita pressa. Então sublinha o "mau humor" ao volante mas é encimado por uma parangona destas? "Solte a sua raiva" é, desde logo, uma das mais imbecis asserções de auto-ajuda alguma vez proferidas. De que contextos falamos? Dos corredores da Segurança Social, do lar do Paco Bandeira, do gabinete do patrão?... E no trânsito, não? Então porquê? Se um gajo soltasse "a sua raiva" à discrição já não havia ninguém para contar a história, ó palhaço! E não há ciência nenhuma na road rage, que se explica simplesmente pelo facto de as pessoas serem umas bestas de cérebro coalhado, com o sentido cívico de uma chapa de zinco e o auto-controlo de um javali em pânico, que, mesmo assim, seria seguramente mais discernente dentro de um automóvel do que 98% dos portugueses. Se este gajo viesse fazer um estágio comigo eu mostrava-lhe a beleza (e produtividade) de soltar a fúria em contexto gregarista, e, entre enxovalhar a colega analfabeta e pegar fogo a um mail para a chefia (e à minha carreira em geral), ainda arranjava tempo para o espancar com a edição em capa dura, a ver se lhe sacava uma ideias que se aproveitassem.

11.1.12

Citação de asas cortadas


Thoreau, Thoreau, tinhas tanta razão, mas não fazias puto ideia do que era um avião.

Outra coisa má

Ontem à noite estava a dar na TV Innocent Blood, um filme realizado por John Landis em 1991, que capitalizava, por um lado, no sucesso internacional de Anne Parillaud, graças a Nikita, de Luc Besson, e, por outro, tentava reeditar o sucesso de An American Werewolf in London, com a mesma mistura de gore e humor. Por razões que escapam ao entendimento, pelo menos à luz dos nossos dias, Parillaud tornou-se uma pequena sensação na altura, talvez porque aceitasse despir-se ao menor pretexto. De resto, como explicar o nu frontal logo no início do filme, em que vemos o jardim de Inverno da protagonista em toda a sua glória? Decerto um petit rien para consumo entusiástico do mercado europeu e no remanso do leitor de VHS. Mas por muita frescura que se exiba, o perfil da mignone enjoativa, com o fiozinho de voz, a presença inefável e uma inabilidade aflitiva para enfrentar a fonética inglesa, esgotou-se rapidamente no celulóide, longe das mãos do seu criador. Innocent Blood é tão inenarravelmente mau, dos diálogos aos efeitos especiais, que por vezes se torna bom. Nomeadamente graças ao desempenho de Robert Loggia no papel de um mafioso sádico, que dá a cada cena o excesso burlesco de que a coisa desesperadamente precisa, parecendo o único actor com noção do filme em que está e a ter algum gozo nisso. Se fizessem uma reedição em Blu-ray só com as sequências em que ele aparece, talvez valesse a pena perder algum tempo a assistir ao precipitado declínio de John Landis.


Agora podes.


Agora não podes.


 Agora estou com um certo calor.



Ah, directo à jugular da minha carreira!

WTF?!...

Hard copy 51

Desclassificados

Indivíduo coloca à venda um artigo. Outro indivíduo faz proposta. Primeiro indivíduo responde com a categoria que define um comerciante sagaz . Se a cloaca produzisse poesia, sairia assim.

Sala de estar


Temos de combinar um jantar…
Pois temos…
O email que eu tenho está certo?...
Não sei, é aquele do… ou o do outro? O mais antigo já não existe.
Sim… Prefiro de manhã…
Cedo?...
Sim, mais cedo… Domingo…
Pequeno-almoço?...
Não, brunch, prefiro brunch, é um compromisso…
Compromisso?...
Sim, assim aproveito melhor o dia…
Podíamos tomar um café…
Boa, um café, sim, combinamos um café… O teu número é o mesmo?
Sim…
Tenho aquele do teu trabalho…
Já não estou lá…
Ah não?...
Há 3 anos…
Então deve ser o outro que tenho no telefone antigo.
Pois…
Tenho de o recuperar…
Hmm…
Olha, e tens escrito?
Escrito?...
Sim, aquelas coisas que tu escrevias, na… no…
Sim…
Boa. E que leituras aconselhas?...
Eu?…
Ando a ler uma coisa bestial daquela… como é que ela se chama?... Já leste?
Não…
Pois é… Realmente, temos mesmo de marcar um almoço… Apareçam mais vezes…
Sim…
Lembram-se daquela vez que vocês fizeram um vídeo, estávamos todos no aniversário da tia… foi uma paródia… tão giro… Têm feito vídeos? Têm de fazer outro vídeo, todos juntos…
Hmm… Já lá vai tanto tempo… A vida…
Então, a tia fazia… Foi em… Treze, catorze anos? Meu Deus…
Bem, está um frio… Assim de repente a temperatura baixou imenso…
Está, está, agasalhem-se… Então vá, beijinhos!
Beijinhos, obrigado…

2.1.12

Quem tem medo de 2012?


Recebi este postal de Boas Festas do ilustrador Pedro Burgos. Bestial e certeiro.

22.12.11

O urro silencioso do Cavaco


Se uma imagem vale mil palavras, verifique-se então quanto vale por meia dúzia delas, articuladas com muita dificuldade. O maxilar do Cavaco parece querer contrariar o fenómeno anti-natural de um Cavaco falante e a traqueia pré-histórica do Cavaco emite uma onda gutural que faz tremer as fundações da comunicação moderna. Um Cavaco devia gravar as suas palavras rústicas nas grutas de Foz Côa ou oferecer o seu aparelho fonador a um Museu de História Natural. É normal, por isso, que o Cavaco contemple. É bom para ele e melhor para nós. Este documento de alto valor socioetnológico dá-nos, finalmente, a verdadeira dimensão do homem-Cavaco.

15.12.11

O chapéu do André



Por muito que aprecie o trabalho de André Letria, não consigo sacudir a má impressão que me deixou a sua indiferença a um email de convite (e também de apreço pelo seu trabalho e de incentivo ao novo projecto Pato Lógico) a uma colaboração no âmbito de um projecto de cidadania. Uma coisa bem posta e simpática, algo diferente dos pedidos de contribuição financeira, das newsletters comerciais ou de solicitações de instituições obscuras, com potencial ou não para suscitar algum interesse mas que, fosse como fosse, merecia uma resposta. Mesmo considerando que o ilustrador poderá encontrar-se ausente em parte incerta, assoberbado por trabalho ou acometido de doença, qualquer uma das três hipóteses plausível, é chato e frustrante ver que alguém cuja criatividade admiramos (re)age como um anunciante no Carga de Trabalhos. Ou foi parar ao spam. Ou o André não quer, mas se calhar precisa.

It's coming...


Ridley Scott é um dos mais sobrevalorizados realizadores da nossa era, se tivermos em conta que os seus melhores filmes, Alien e Blade Runner, datam de 1979 e 1982, respectivamente. Por outro lado, desde 1991 que não assina uma película digna de registo (Thelma & Louise) e, ao longo dessa década, foi responsável por fitas como 1492: Conquest of Paradise (que, entre outros efeitos nefastos, soltou de novo Vangelis sobre o mundo) e G.I. Jane. Em anos recentes, apenas American Gangster, Body of Lies e Black Hawk Dawn, este por puro mérito técnico, merecerão algum destaque. Scott tem 74 anos, conseguirá recapturar a glória do passado num género em que parece sentir-se particularmente à vontade? O esmero e o secretismo colocados na produção de Prometheus levam-nos a crer (querer) que sim, e com um elenco que inclui Michael Fassbender, Noomi Rapace, Idris Elba e Charlize Theron, a vontade de o ver é ainda maior.

14.12.11

Sabor a sucesso

 Chispe de coentrada

 Ana Malhoa

No outro dia dei casualmente com esta besta sensual a "actuar" na TV, num programa qualquer que devia ter "Portugal" no nome. A distinção entre número musical e rubrica culinária dar-se-á de forma difícil no entendimento de quem assiste a tal fenómeno, pois são inegáveis as semelhanças entre a Ana Malhoa (aqui invulgarmente tapada na capa de uma colectânea de êxitos volumosos) e um prato de chispe de coentrada.

Um logo muito feliz e um logo muito infeliz

 

Hugo Awards, Jeremy Kratz (2011)



Archdiocesan Youth Commission, Gerry Kano (1973)

Hard copy 50


Não fosse a demasiado óbvia e maçadora redundância, seria levado a dizer que este até é um bom slogan.

Almodóvar noutra pele

 Jan Cornet e um alguidar em La Piel que Habito

Não se pode deixar de elogiar a mudança de registo que Pedro Almodóvar adopta em La Piel que Habito, aventurando-se no território do thriller psicológico. Mostra uma vontade de se reinventar e de enfrentar novos desafios rara entre os cineastas europeus (justamente) canonizados. Nesse sentido, as fraquezas deste filme acabam por ser as suas forças: o humor negro, um cuidado cénico exemplar, que acrescenta sempre algo de original ao rico universo almodovoriano, e a elegância irrepreensível da realização. Virtudes que roubam a quota de ritmo, tensão e morbidade que uma história deste tipo exigiria. Não que Almodóvar o esqueça, simplesmente o formalismo excessivo na construção da atmosfera leva a que as personagens não recebam a atenção devida. O tom geral é de frieza, o que até se consegue entender numa história de vingança maníaca e cirurgicamente programada, mas a loucura é retratada de uma forma excessivamente asséptica, retirando quase por completo o pathos a um desenlace que, em vez de galvanizar, gera alguma indiferença. No entanto, mesmo distante e fragmentado, La Piel que Habito é um OVNI interessante no percurso do realizador manchego.

A difícil arte de cagar


Gipi aborda, com a necessária visceralidade, um problema muito comum e bastas vezes silenciado. E quem diz que comer muitas coisas verdes ajuda, claramente não sabe do que fala.

6.12.11

As Aventuras da Super-Rolha - Uma Rolha Pelo Natal

Saganice

BD para a vida












Não sei que tipo de barreira se criou entre mim e a literatura 'convencional'. A bem dizer, ela sempre existiu, pois a banda-desenhada enquanto forma de arte narrativa sempre se me afigurou bem mais sedutora. Desde miúdo, graças aos intermináveis tomos de capa dura cinzenta com os muitos números da Tintin, Spirou e Jacaré coleccionados pelos meus pais. Em particular, claro, da Tintin, com o melhor da escola franco-belga. Em férias, os dias passavam e terminavam inevitavelmente por ali, de nariz enfiado nos calhamaços recheados de surpresas em continuação. Com o passar dos anos, desbravar texto passou de reconforto num miserável início de adolescência a obrigação curricular, converteu-se num denso mato académico e, eventualmente, cristalizou-se por tempo indeterminado em expectativas diversas. As Tintin deram lugar nas estantes à (A SUIVRE), e ao imaginário infanto-juvenil sucederam-se as habituais premências da entrada na idade adulta. A BD foi substituída por interesses emergentes que não incluiam o sexo oposto, para mal da minha maturação no interior de Portugal em meados dos 80, mas antes se realizavam num interesse obsessivo por automóveis (da qual são infeliz testemunha as páginas truncadas de "Michel Vaillant", nos mesmos tomos de capa rija) e, posteriormente, numa mais saudável curiosidade por todas as coisas cinematográficas, partilhada e alimentada pelo meu irmão mais velho. A BD lá em casa amadureceu ao nosso lado mas foi ignorada por demasiado tempo, excepção feita, não sei bem porquê, a "Valérian e Laureline", "Blake & Mortimer" e ao genial e psicadélico Fred, por quem a minha mãe nutria especial afecto. A (A SUIVRE) já não existe mas apetece-me reabilitar a sua memória e recuperar o tempo perdido. Não fossem o gosto e curiosidade do meu pai ao longo dos anos (e também a gulosa biblioteca da Mafalda R., com os seus muitos volumes da Love and Rockets), jamais teria tido oportunidade de conhecer Jiro Taniguchi (Le Gourmet Solitaire), Art Spiegelman (Maus), Craig Thompson (Blankets) ou as novelas gráficas de Gipi, descobrindo, quer em termos plásticos quer a nível de escrita, propostas infinitamente mais aliciantes do que os trabalhos de Moebius, Bilal e Milo Manara, sendo que "Corto Maltese", apesar da adesão generalizada que observava à minha volta, sempre me foi estranhamente indiferente. Enfim, não sei onde isto me leva. Ou melhor, sei. Nunca me cansarei de agradecer a possibilidade de contactar com outra forma de contar histórias, que possivelmente me resgatou a um permanente auto-exílio literário. O rigor descritivo de Taniguchi, a poesia de Blankets, a humanidade e nobreza de Maus, a beleza das aguarelas de Gipi, que vivem muito para além da precisão das suas palavras... São uma dádiva patriarcal a riqueza destes imaginários, a diversidade dos estilos e a paleta de emoções retratadas com simplicidade, beleza e notável sentido de ritmo – onde os bons filmes e as boas BD claramente se cruzam. A uma nova fornada, em breve. Será o meu presente de Natal.

As Aventuras da Super-Rolha - O Estacionário

As Aventuras da Super-Rolha - Come e Não Chora

Suburban sexy 25


Ou o esplendor incompreendido de Lisboa, em plena Avenida de Roma, Dezembro de 2011.

Lisboa menina e moça está velha e desdentada (mas ainda ganha concursos de beleza)


Por onde começar?...

Será:

Pelo planeamento urbano? Não.
Pela reabilitação urbana? Não.
Pela requalificação urbana? Não.
Pela reabilitação do património histórico? Não.
Pela reabilitação do património arquitectónico? Não.
Pelo repovoamento do centro urbano? Também não.
Pela qualidade da empresa pública de urbanização de Lisboa? Ná.
Pela idoneidade do sector da construção e obras públicas? Hum...
Pela rede de transportes da área metropolitana? Não.
Pelo plano de circulação automóvel? Não.
Ciclovias? You wish.
Estacionamento? Ah ah ah...
Medidas de controlo da poluição atmosférica? Não.
Sonora? Er...
Visual? Pf...
Pela intervenção comunitária? Não.
Pela consciência cívica? O superlativo de não.
Pela defesa do bem comum? OK, já chega.

De projectos urbanísticos de reabilitação, requalificação, reconstrução, primeiros socorros, transfusão e cuidados paliativos, espalhados por estiradores, espelhados em AutoCAD e invariavelmente perdidos nas catacumbas da CML (salvo raríssimas excepções) está esta cidade cheia. Pelo que, a meu ver, os motivos desta tonta honraria, para além do habitual roça roça diplomático pelas esquinas do estilo, devem residir no reconhecido apreço dos "académicos" pelo tinto, pelo peixinho grelhado, pelas casas de fado e, claro, pelo sol, o mais tarimbado relações públicas do urbanismo lusitano. Cá vos esperamos para a jantarada no restaurante O Burguesão, que em Oslo e Gotemburgo faz muito frio.


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