19.10.11

A melhor colheita

No firmamento de Hollywood, que é como quem diz, na consciência cinéfila universal, existe um lote reduzido de actrizes que, por força do mérito e das circunstâncias, conseguiram construir carreiras firmes e unanimemente respeitadas, em papéis protagonistas ou secundários, colocando consistentemente o seu talento em evidência. Quase todas beneficiaram de colaborações com bons realizadores e bons argumentistas, para além de um apoio quase incondicional da crítica e dos seus pares, mas muitas vezes o seu talento elevou o interesse de um filme menor. Ninguém atinge este estatuto por acaso. Discernimento e um bom agente são factores decisivos. As escolhas que se fazem em busca de um sucesso de grande escala e a excessiva preocupação na construção de uma imagem, não apenas condicionam grandemente a evolução e a liberdade de um actor, como determinam a longevidade da sua carreira. Entre as actrizes que se encontram em actividade com uma patine de prestígio árdua e inteligentemente conquistada contam-se profissionais como Meryl Streep, Vanessa Redgrave, Frances McDormand, Susan Sarandon, Helen Mirren, Emma Thompson, Glenn Close, Joan Allen, Kate Winslet, Annette Bening, Judi Dench, Cate Blanchett, Jodie Foster, Diane Keaton, Julie Christie, Maggie Smith, Gena Rowlands, Tilda Swinton, Isabelle Huppert, Ellen Burstyn, Laura Linney, Isabelle Adjani, Julianne Moore, Anjelica Huston e Kristin Scott Thomas.

As actrizes que este post destaca correspondem, em boa medida, ao perfil acima traçado, encontrando-se claramente na curva ascendente para o altar das consagradas. Algumas abraçam o jogo da fama e beneficiam dos seus dividendos dentro e fora do ecrã, outra não terão tido as oportunidades desejáveis ou desejadas, outras ainda terão optado por um trajecto mais discreto, longe das garras dos grandes estúdios. Em comum têm um talento admirável e demonstram um investimento consistente nos seus desempenhos, algo não necessariamente característico de estrelas de cinema, mas sim de grandes intérpretes.

Naomi Watts

21 Grams

Os muitos anos a penar em produções menores acabaram por ser recompensados por um eclodir tardio pelas mãos de David Lynch, em Mullholland Drive. Todo o seu potencial foi confirmado em 21 Grams, King Kong e The Painted Veil.

Rachel Weisz

The Whistleblower

A sombra de Kate Winslet na disputa pelo trono de melhor actriz britânica da sua geração. Talvez já merecesse estar uns graus acima, depois de trabalhos admiráveis em The Constant Gardener e The Shape of Things, mas um desempenho superlativo em The Whistleblower deve encarregar-se de lhe dar, por fim, a projecção merecida.

Vera Farmiga


Running Scared

Um crítico norte-americano chamou-lhe “our generation’s Streep”, mas os norte-americanos têm uma obsessão por rótulos e os críticos por encontrarem sucessores de tudo e mais alguma coisa. Vera Farmiga tem algo de muito de especial, é certo, o que a faz ser a Vera Farmiga da nossa geração. That’s good enough. Veja-se Running Scared, Down to the Bone e Higher Ground, que ela própria realizou. Muita gente a conhece de Up in the Air, mas há muito mais por descobrir.

Marion Cotillard

La Môme

Uma rara beleza natural e uma espontaneidade desarmante não são suficientes para explicar o que diferencia Marion Cotillard. A intensidade do olhar, a subtileza das interpretações e a convicção que imprime a todas as personagens, por mais pequenas que sejam, estão a torná-la num novo ícone do cinema mundial. França é pequena demais para Marion. A ver: Un Long Dimanche de Fiançailles, La Môme e Nine.
 
Charlize Theron


Monster

Uma das actrizes do “sistema” que mais tem lutado contra a estereotipificação da (muito) bela de serviço, atirando-se de unhas e dentes a personagens difíceis, até agora com resultados impressionantes. Em Monster ofereceu-nos um desempenho assombroso, North Country marcou mais um passo na afirmação do seu talento e In The Valley of Elah estabeleceu-a como um nome indispensável no cinema actual. São precisos mais Monsters e menos Hancocks.

Emily Watson

Oranges and Sunshine

Por qualquer razão estranha, este nome não é referido com a frequência desejada quando falamos de grandes damas do cinema. Hollywood parece não saber o que fazer com ela e o público tende a esquecer-se da portentosa actriz que Emily Watson é. Spielberg não, e talvez War Horse venha a fazer toda a diferença. Mas houve vida para além de Breaking the Waves, que a revelou (e vitimizou até à náusea). Veja-se Hillary and Jackie, Angela’s Ashes e Oranges and Sunshine.

Jennifer Ehle

Contagion

Esta actriz britânica, depois de brilhar em Sunshine e Possession parece ter perdido (intencionalmente ou não) o comboio das boas oportunidades. Filha da grande Rosemary Harris, Ehle tem feito carreira no teatro e, ocasionalmente, na televisão, ressurgindo agora, com a mesma chama, em Contagion, de Steven Soderbergh.
 
Viola Davis


Doubt

Veterena dos palcos e do cinema norte-americanos, Davis viu a sua grande oportunidade chegar quando John Patrick Shanley lhe ofereceu um papel fulcral na adaptação cinematográfica da sua peça Doubt. Depois disso passou de secundária sólida a reverenciada protagonista, nomeadamente no recente sucesso The Help. Antes desta fase vale a pena espreitar Antwone Fisher, de Denzel Washington.

Olivia Williams

The Ghost Writer

Kevin Costner escolheu-a para protagonista feminina de The Postman, interminável estopada que não fez nada pela carreira da actriz. Rushmore viria a mudar o rumo das coisas e, depois de um período mais centrado na televisão, Williams afirmar-se-ia como uma notável actriz de cinema em An Education e, particularmente, em The Ghost Writer.

Kelly MacDonald

No Country for Old Men

A escocesa Kelly MacDonald ainda não tem o reconhecimento que merece, mas, se houvesse justiça nas decisões de casting, depois de No Country For Old Men deviam estar a chegar-lhe todos os bons guiões. De Trainspotting a Gosford Park foi um longo percurso, sempre marcado pela qualidade, mas no filme dos irmãos Coen nasceu uma estrela. Ou deveria ter nascido.

Kerry Washington

Lakeview Terrace

Seguramente uma das mais subaproveitadas actrizes norte-americanas, Washington tem provado a sua versatilidade desde que Spike Lee lhe deu um papel de relevo em She Hate Me. As suas interpretações em The Last King of Scotland, Lakeview Terrace e Mother and Child confirmam que estamos na presença de uma das melhores intérpretes da sua geração.

Samantha Morton

In America

Outra inglesa nesta lista, Samantha Morton tem optado por um percurso mais “offbeat”, escolhendo essencialmente projectos independentes (manifestamente mais interessantes), que colocam em evidência todo o seu potencial. Com um eterno ar de miúda, Morton começou por impressionar em Sweet and Lowdown e haveria de transcender o estereótipo da mulher frágil em filmes como In America, Control e The Messenger. Um dos talentos mais brilhantes a sair da Grã-Bretanha nos últimos anos, a par de Winslet e Weisz.

Emilia Fox

Cashback

A filha do actor Edward Fox pode nunca vir a ganhar a exposição e o reconhecimento que o seu talento justificariam, até porque muita da sua carreira se tem desenrolado na televisão britânica, mas quem a viu em The Pianist, Cashback e Flashbacks of a Fool concordará que é uma actriz que tem tudo para ir muito mais longe: domínio técnico, carisma e beleza.

Kate Beckinsale

Snow Angels

Não sei se Beckinsale merece estar nesta lista. Quem faz um pacto com o demónio (Michael Bay, Pearl Harbor), entra em Van Helsing e, logo de seguida, escolhe ser co-protagonista, se é que existe tal coisa, de uma comédia com Adam Sandler (Emily Watson fez o mesmo, mas às ordens de Paul Thomas Anderson, num filme a sério e com um papel) suscita sérias dúvidas quanto a uma carreira inequivocamente respeitada. No entanto, se por cada Underworld houver um Snow Angels, por cada comédia romântica genérica um Laurel Canyon e por cada presença nas revistas cor-de-rosa um Nothing But the Truth, Beckinsale tem hipóteses. Porque é, efectivamente, uma actriz de enorme talento.

17.10.11

Acende aí o incenso, ó Zénite


Não será de propósito que mantenho em stand by indefinido uma formação na arte de meditar, mas os boletins informativos do centro onde pretendo fazê-la não tem contribuído muito para me dar alento. Entre títulos tão sugestivos (e confusos) como "Concerto Para O Amanhecer - Maravilhoso! Cada pássaro.....", onde, para ganhar expressividade, as reticências levam dois pontos adicionais, palavras de encorajamento do calibre de "(...) e que um dia venham a entender a linguajem dos pássaros" - pronunciar lingua[rr]em, à espanhola, para evocar o chilrrear - e textos como o que a seguir apresento, fico com receio de que a meditação cause danos no córtex frontal ou, no mínimo, estados de confusão profunda. Existirá por aqui alguma alusão velada à plutocracia e um incitamento à revolução; ou, pelo contrário, à resistência submissa, mas sem a parte da resistência; ou será uma legitimação mística da ganância e se amares o próximo geras amor e se amares banqueiros violentos ainda mais, porque geras dinheiro a prazo, com algum sacrifício pessoal?... Chiça, não são só os tibetanos que ficam com a língua de fora.

14.10.11

O peso da tradição


(Obrigado, Z.)

Porque as crianças merecem o melhor


Mais ou menos pela mesma altura descobri o maravilhoso mundo dos bolos de gomas (que pelos vistos levam palitos e esferovite para dar um encanto adicional à diabetes) sendo que esse nome não servia os propósitos desejados. Assim sendo, propus umas quantas versões que, surpreendentemente, não foram aprovadas:


Sonho de Gosma

Nheca de Corantes

Mixórdia de Açúcares Refinados e Conservantes Carcinogéneos

Doce Veneno

Cocktail de Polissacarídeos

Desbunda de Ácido Carmínico

Explosão de Glicósido Fenólico

Alegria Alergénia

Apocalipse Nutricional

Estouro Metabólico

Devaneio Hiperglicémico

Coisa Má

 
Não, mas a sério, alguém dá isto a comer a uma criança?

Humor às fatias




Há tempos, por bizarras razões profissionais que às vezes comandam o meu quotidiano, andei a pesquisar sobre bolos. Mais concretamente, sobre aquelas confecções barrocas que recriam tudo e mais alguma coisa, de um relvado de futebol a uma fralda para incontinência. Desde que tenha cores berrantes, formas estranhas e, normalmente, um requintado mau gosto, vale tudo. Mas o que mais me agradou foi este exercício de sadismo (pouco) subtil, dirigido ao coração meigo e inocente da criança que pediu um bolo de aniversário em forma de personagem favorita. A mãe, orgulhosa, exibiu a sua obra num blog que dedica a estas delícias, documentando um detalhado processo de desmembramento. A senhora explica de passagem que o filho não entende o tipo de humor de Family Guy. Ela, porém, deve desfrutar quase tanto desta série quanto da sua dose semanal de Dexter.

13.10.11

15 de Outubro a Democracia sai à rua!

PROTESTO APARTIDÁRIO, LAICO E PACÍFICO

- Pela Democracia participativa.
- Pela transparência nas decisões políticas.
- Pelo fim da precariedade de vida.

MANIFESTO:

Somos “gerações à rasca”, pessoas que trabalham, precárias, 
desempregadas ou em vias de despedimento, estudantes, migrantes e 
reformadas, insatisfeitas com as nossas condições de vida. Hoje vimos 
para a rua, na Europa e no Mundo, de forma não violenta, expressar a 
nossa indignação e protesto face ao actual modelo de governação 
política, económica e social. Um modelo que não nos serve, que nos 
oprime e não nos representa.

A actual governação assenta numa falsa democracia em que as decisões 
estão restritas às salas fechadas  dos parlamentos, gabinetes 
ministeriais e instâncias internacionais. Um sistema sem qualquer tipo 
de controlo cidadão, refém de um modelo económico-financeiro, sem 
preocupações sociais ou ambientais e que fomenta as desigualdades, a 
pobreza e a perda de direitos à escala global. Democracia não é isto!

Queremos uma Democracia participativa, onde as pessoas possam intervir 
activa e efectivamente nas decisões. Uma Democracia em que o exercício 
dos cargos públicos seja baseado na integridade e defesa do interesse 
e bem-estar comuns.

Queremos uma Democracia onde os mais ricos não sejam protegidos por 
regimes de excepção. Queremos um sistema fiscal progressivo e 
transparente, onde a riqueza seja justamente distribuída e a segurança 
social não seja descapitalizada; onde todas as pessoas contribuam de 
forma justa e imparcial e os direitos e deveres dos cidadãos estejam 
assegurados.

Queremos uma Democracia onde quem comete abuso de poder e crimes 
económicos e financeiros seja efectivamente responsabilizado por um 
sistema judicial independente, menos burocrático e sem dualidade de 
critérios. Uma Democracia onde políticas estruturantes não sejam 
adoptadas sem esclarecimento e participação activa das pessoas. Não 
tomamos a crise como inevitável. Exigimos saber de que forma chegámos 
a esta recessão, a quem devemos o quê e sob que condições.

As pessoas não são descartáveis, nem podem estar dependentes da 
especulação de mercados bolsistas e de interesses financeiros que as 
reduzem à condição de mercadorias. O princípio constitucional 
conquistado a 25 de Abril de 1974 e consagrado em todo o mundo 
democrático de que a economia se deve subordinar aos interesses gerais 
da sociedade é totalmente pervertido pela imposição de medidas, como 
as do programa da troika, que conduzem à perda de direitos laborais, 
ao desmantelamento da saúde, do ensino público e da cultura com 
argumentos economicistas.

Os recursos naturais como a água, bem como os sectores estratégicos, 
são bens públicos não privatizáveis. Uma Democracia abandona o seu 
futuro quando o trabalho, educação, saúde, habitação, cultura e bem-
estar são tidos apenas como regalias de alguns ou privatizados sem que 
daí advenha qualquer benefício para as pessoas.

A qualidade de uma Democracia mede-se pela forma como trata as pessoas 
que a integram.

Isto não tem que ser assim! Em Portugal e no Mundo, dia 15 de Outubro 
dizemos basta!

A Democracia sai à rua. E nós saímos com ela.

O melhor Mel


O capital de má vontade acumulado contra Mel Gibson é suficiente para lhe garantir uma longa travessia do deserto. A ver pelo pouco entusiasmo suscitado por The Beaver, a aversão do público a Gibson sobrepôs-se aos méritos do filme realizado por Jodie Foster. Num futuro mais ou menos distante, este sanguíneo exemplar da Hollywood de ontem há-de ressurgir em glória numa fita à medida, todos os pecados lhe serão perdoados e o gajo, afinal, tinha talento e ninguém se lembrava. Bom, quanto a mim nunca teve grande talento. Não como actor e, decididamente, não como cineasta. The Passion of The Christ e Apocalypto fazem de Ken Russell um autor subtil e intimista, e Braveheart, bom, é o Twilight com porrada, cavalos e anfetaminas. O certo é que, neste filme, consegue mostrar algo que nunca lhe vi anteriormente: sinceridade e contenção. E é a fragilidade autêntica de uma figura reconhecidamente transtornada (dentro e fora do ecrã) que dá força a este filme desigual. Gibson pode ser uma besta, mas em The Beaver é bestial.

12.10.11

Niilismo processual


"Achievement brings its own anticlimax."

Agatha Christie 

A estratégia do quadradinho

Ele existirá depositório de maior neurose passivo-agressiva que os fóruns na net? Se nos comentários dos jornais é mau, nos dos blogues é pior. Espaço informal e "amigável" onde convergem ou divergem opiniões, a ideia é manter um registo descomprometido, bem humorado e, dentro das possibilidades de cada um, de bom tom. A não ser que o espaço seja uma baiuca ou um altar. Normalmente, aí, dentro e fora da blogosfera, a tendência é para pegarem em calhaus antes de abrir o verde. Enfim, no pequeno quadrado da vizinhança onde experimentamos uma troca de ideias, uma piada, uma concordância ou uma leve subversão de tom, não acontece mais do que um esboço de personalidade ou uma tentativa de nos fazermos presentes. Algo que deveria ser espontâneo e salutar. Mas não. Uma caixa de comentário é um território acastelado, povoado por ideias feitas e defendido por um exército de fiéis que celebram os mesmos códigos e escorraçam o desconhecido. Ali se deflectem as ofensivas dos intrusos através de um arreio virtual. Comentar num fórum moderno é, verdadeiramente, uma aventura medieval.

Aqui, e como me recordou uma amiga, adopta-se a postura do gentil homem. Pode é ser da artilharia.

10.10.11

Bo(we)llywood


Há coisas más que são só más e mais nada. Depois há coisas más que têm piada por serem más. E depois há coisas péssimas que já não têm tanta piada porque normalmente chateiam. Sobretudo quando são sempre iguais, o que quer dizer que são sempre péssimas. Algures por aqui surge Bollywood. Mas há coisas vindas de Bollywood que, a ver pelo esclarecedor (?) exemplo, são tão péssimas que merecem um neologismo, tipo polipéssimo. Na verdade, em vez de chatear, induzem um estado revelatório de incredulidade e comoção, como quando se come uns cogumelos muito marados ou se fuma shit do Martim Moniz embebida em solvente com vestígios de clorofosforado em plena crise disentérica. Algo que deve ter acontecido ao genial realizador desta extraordinária obra cinematográfica, antes de ela lhe brotar directamente da tripa.

(Obrigado, Pedro.)

4.10.11

Brigada SUV (Só Unidos Venceremos)

Esta serve.

Foi com grande satisfação que hoje descobri que este post é o mais lido de sempre na história deste blog. De acordo com o tracker, foi visto 216 vezes. O que significa que as 4 pessoas que lêem aqui o pasquim devem ter feito, epá, para cima de uma dúzia de investidas cada uma, possivelmente porque se aborreciam de morte a cada parágrafo e levavam vários dias para ver as biaturas. Seja como for, espero que a razão da "popularidade" se deva à raiva que estas bizarmas provocam no cidadão comum. Boa. Estamos a deixar a nossa marca. Próximo passo: um distraído encostar de chave num passeio qualquer.

27.9.11

"There is no such thing as society."


A História da Europa repete-se, já sabemos, mas a incapacidade de aprender – de perceber? – o que ela nos transmite é, antes mesmo da constatação do fracasso de criar um propósito comum (e muito menos solidário), a total improbabilidade de algum dia sobrevir um sistema governativo capaz de implementar uma filosofia humanista. Porque nenhuma estrutura de poder, já depois de o povo ter voz própria, prioriza a mesma matéria que o sustenta e promove. O poder é predatório, sempre, porque desabridamente rentável, com uma gula que necessita tanto de promoção como de carne para os seus canhões. O modelito de estadocracia mercantilista que actualmente vigora regurgita lentamente todos os seus pecados, até ao próximo banquete. E mesmo uma análise superficial revela que as medidas adoptadas para estancar a asneirada unionista estão moralmente hipotecadas. Se alhures outros nacionalizavam e manipulavam, outros por cá privatizam e manipulam. A essência é a mesma, só o figurino é variado, vestido de folclore doutrinário, de delírio despesista, ou, como agora, usando a capinha da contenção.

Antes de a velha Europa se transformar previsivelmente num rancho cozido a pressão em panela defeituosa, a Velha Albion já tinha conhecido as palavras e acções da Morgan le Fey do neoliberalismo, talhante das medidas sociais e dos direitos humanos. E, ao que parece, das contas públicas também. Há 24 anos, Thatcher crivou como ninguém a política do ceifar a eito. Simplista, genérica e mecânica, como, período sim, período não, se acredita que o exercício do poder deve ser. Entre o “let ze grrrreeek guyzz go, let ze grrreeek guyzz go” de um exaltado corrector germânico, dirigido à União Europeia, e as medidas “reformistas” de Passos Coelho, pela cartilha do FMI, a filosofia de reestruturação socioeconómica em curso é plenamente ilustrada pelo discurso da “dama de ferro”. Económica? Possivelmente. Social? Nunca.

"I think we've been through a period where too many people have been given to understand that if they have a problem, it's the government's job to cope with it. 'I have a problem, I'll get a grant.' 'I'm homeless, the government must house me.' They're casting their problem on society. And, you know, there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families. And no government can do anything except through people, and people must look to themselves first. It's our duty to look after ourselves and then, also to look after our neighbour. People have got the entitlements too much in mind, without the obligations. There's no such thing as entitlement, unless someone has first met an obligation."

(Margaret Hilda Thatcher, Primeira-Ministra Britânica (1979-1990), revista Women's Own, 31 de Outubro de 1987)

Li um artigo muito interessante, escrito por um professor de Política Social, que compara o modus operandi de Thatcher (diferenciado apenas terminologicamente) ao do actual Primeiro-Ministro britânico, David Cameron:

“She said the state was inefficient as a service provider; that public expenditure inhibited wealth creation and created dependency, and that we should turn instead to the market.

She aimed to cut public expenditure. She reduced welfare benefits and stigmatized people receiving them as dependent and scroungers. She called for an expansion of self-help and voluntarism. Her critics said that she weakened UK economic performance, increased economic inequality and reduced social mobility. They argued that her reforms increased social divisions, undermined social cohesion and had particularly damaging effects on the regions, Scotland and Wales and their manufacturing industries.

She actually massively increased public expenditure on welfare benefits through increasing unemployment. Her reduction of expenditure on the health service seriously undermined its performance and meant that being seen as looking after the National Health System has become a watchword ever since for any leader who wishes to be elected and remain in power.

(…)

So what is the difference between devaluing and discounting society and talking it up – between no society and "big society"?”

Descubra as diferenças.

25.9.11

Isto & Aquilo



Sunstorm, Zo! (HBD, 2010)

22.9.11

Suburban sexy 24

Orçamento de Estado 2012


Por aquilo que vou lendo, percebo que continuará a não existir verba para o Civismo. Seria interessante, porém, prever taxação de IVA a 23% de cada vez que ele se mostrasse ausente. Aí sim, era arrecadar. E, já agora, considerar
taxa agravada sobre a expressão "é assim", o cabelinho à foda-se, os sapatos de vela e os mocassins em camurça (com possível agravamento se usados sem meias), as calças descaídas abaixo do rabo, as havaianas - que também se usa muito e nem sempre é muito estético -, toda e qualquer peça de vestuário com bandeiras, velas e animais, e ainda óculos com hastes em massa de cor? Ah, e também as aparições públicas da Mariza.
Não podemos aliviar as finanças com o Ronaldo? Seria interessante traficá-lo, de preferência enquanto é bonito, rico e um grande jogador.

Também gostaria que os senhores metidos na cave a rabiscar números entendessem que o conceito de "taxa adicional de solidariedade" é um oxímoro... Ou será uma antítese?

21.9.11

Hard copy 44



Uma "notícia" (cortesia TVI24, pois claro), que ilustra na perfeição o abuso de certos elixires bucais.

"Um país que importa tudo mas não se importa com nada." (*)


"O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em
descrédito das próprias maravilhas regionalistas; o comércio e a indústria têm
quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente
rendosos. É porque todas essas variedades da importação cumprem mais
exactamente as exigências dos mercados do que os nossos comércios e
indústrias regionalistas. Estas não satisfazem nem as necessidades nem as
transformações sucessivas das sociedades, enquanto que a importação aparece
sempre como uma surpresa e, sobretudo, obedecendo a todas as condições do
que é útil, prático, actual e necessário. De modo que nem chega a haver luta – a
importação entra logo com o rótulo de vitória."

In "Ultimatum Futurista", Almada Negreiros, 1917

Ilustração: André Carrilho

(*) Nas palavras sábias do meu colega Pedro B.

I gotta feeling (this shit is about to go)

Acho que isto resume elegantemente a ideia.

De acordo com os editores do site de “música ligeira” Popjustice, estas são as frases que deviam ser erradicadas de futuras canções da Rihanna:

1.    In the club
2.    In the air
3.    At the bar
4.    On the bar
5.    On the floor
6.    Up on me
7.    Up on the floor
8.    Tell the DJ
9.    I know you like it
10.    You know I like it
11.    Oh oh oh oh oh oh
12.    Yeah yeah yeah yeah yeah yeah
13.    Go o o o o o
14.    Turn me on
15.    Turn it up
16.    Pump it up
17.    Pump it more
18.    Feel the beat
19.    Bad boy
20.    Bad girl

Parece-me a mim que teria de se eliminar este fraseado de 99% da actual música popular dita “negra” de proveniência duvidosa, normalmente anglo-saxónica. Acontecendo isso, todo o soul e hip hop manhosos, em particular com o dedo untuoso de Will.I.Am, assim como todo o europop da fábrica de acrílicos Guetta & Cia. deixariam de ter razão de existir. Se os tentáculos da chungaria mercenária libertassem os estúdios, poderíamos voltar a ter um pouco de soul, de pop e, quem sabe, até de funk, sem cornetas sintéticas (a.k.a. autotune) por todo o lado. Talvez diminuisse, até, o número de fenómenos de popularidade embalados a vácuo no crânio de teenagers de todo o mundo. Por entre o lixo encontram-se algumas batidas com piada e uma nuances inovadoras, mas a imbecilização de textos e música massificou-se de tal forma que o mainstream da música urbana se transformou num aterro sanitário. Quando já ninguém aguentar o cheiro, parece-me que haverá, forçosamente, um regresso às raizes, aproveitando apenas o elemento criativo da tecnologia. Afinal, até quando se consegue processar ao quilo no Logic Pro as mesmas 20 frases?

20.9.11

Deus Woody

     Woody Allen em Sleeper (1973)

 "I don't want to achieve immortality through my work. I want to achieve it through not dying."

Woody Allen

Pois, mas, à falta de melhor, ela está assegurada pela obra até, vá, 1994. A partir daí, já não poria as mãos no fogo. E apesar da chama fugazmente reacendida com Midnight in Paris, parece-me que vai continuar a queimar etapas até chegar ao panteão.

Fujiu-lhes o dedo

 
 
Não deve ter sido intencional, imagino. Uma coisa tipo subliminar, visto que, de qualquer maneira, nunca ninguém presta atenção aos url. Mas não me parece. A rebelião jornalística foi um mero e (in)feliz lapso. Venham mais destes!

(Obrigado, P.)

16.9.11

Isto, sim, tem piada!


Grande Eládio Clímaco. De tanga. Em Ibiza. "Destapado". Hilariante. 

PT, Licor Beirão, McDonalds, Crédito Agrícola, Frangos de Moscavide, anyone?...

Vai vir charters da China a mim não me assiste


Não é que a estupidez, muitas vezes, não tenha piada. Devia, aliás, ter sempre piada, ao invés de ser quase sempre revoltante e letal. O que é deprimente é a glorificação da estupidez (e dos estúpidos) e a sua industrialização com um alegre chapéu de irreverência e espontaneidade. Mas não é irreverência, e muito menos espontaneidade. É o primarismo mais calculista. Um esfreganço nas partes baixas do denominador comum e uma paupérrima desculpa para a total ausência de criatividade. E, tontinho, este país continuará a facturar com a cretinice, porque quem factura e se ri no fim, são, invariavelmente, os cretinos. Favor verificar.

Ilustração: Emiliano Ponzi

14.9.11

Suburban sexy 23


E o país inteiro está em Angra.

12.9.11

Cirurgia


Perdi a cabeça. Parti-a em pedaços tão pequenos que se tornaram inconciliáveis. Perdi rasto de uma cabeça inteira. Tenho fragmentos que se arrastam para uma conciliação distante. São um ameaço de noção e sobras de sentimento. Pó de lágrima. Seria talvez mais fácil varrer esta merda toda, mas uma cabeça, mesmo desfeita, agarra-se desesperadamente à crença de um corpo.

Fotografia: Todd McLellan ("Typewriter")

8.9.11

Cabeça no ar


 André - Valha-me Deus, valha-me a Santa!

João - Hoje estás como o bacalhau.

André - ...

João - Espiritual.

Ilustração: André Letria

Soluções para a crise 9


Estou convicto de que a solução para a crise passa por pequenos gestos práticos no dia-a-dia, que devem ser optimizados em função das necessidades crescentes de poupança. Além disso são bons para o meio ambiente.

- Nunca, mas nunca, fazer pisca.

- Não perder tempo a atravessar no verde quando pode fazê-lo no vermelho, incluindo na presença de veículos em movimento (bem visto, igualmente, para o controlo populacional).

- Utilizar amiúde a expressão "não há palavras".

- Não escrever "obrigado" por extenso num email, quando "obg", "ob" ou "obr" basta.

- Pensando melhor, nem sequer perder tempo com esse gesto de inútil cortesia, eliminando igualmente anacronismos como "bom dia" e "se faz favor", na escrita e na oralidade.

- Alimentar o Facebook com a urgência dos seus pensamentos e não desperdiçar recursos a criar ou aprofundar relações significativas e duradouras.

- Entrar porta adentro quando um transeunte a segura, sem gastar preciosos minutos a rendê-lo ou a agradecer a atitude. É desejável que, nestas situações, entre o maior número de pessoas no menor tempo possível.

- Pedir ao taxista que ande ainda mais depressa, incentivando ziguezagues, travagens bruscas e acelerações tresloucadas, pois poupar tempo é seguramente mais importante do que a integridade física do passageiro, dos automobilistas e dos peões, já que a do taxista, assim como assim, até se penhorava.

- Ser compreensivo nos serviços, quando as meninas (porque são normalmente meninas) da caixa despacham afazeres pessoais, tais como terminar uma conversa telefónica com a amiga, a mãe, o marido, a tia, a irmã, o cão, o cão da irmã; efectuar uma reclamação à loja de cosméticos por causa da cor do verniz; estar ausente para almoço às 14.30h porque aproveitaram para ficar logo jantadas; contar anedotas ordinárias aos colegas; olhar fixamente para um papel minutos a fio escrevinhando e agrafando lenta e obsessivamente por razões seguramente urgentes que só elas conhecerão.

- Aguardar pacientemente que a pessoa à sua frente no multibanco efectue todos os pagamentos do mês e ainda meia dúzia de transferências, porque se é aborrecido ligar o computador, muito mais será aprender a saldar contas online (e os custos, e a electricidade?).

- Compreender que um médico de família não tem tempo a perder no contacto com os seus pacientes. Essa é a razão pela qual não desviam o olhar do monitor: não tiveram oportunidade de ir ao multibanco mas já aprenderam a utilizar a internet. Um bom médico de família, de resto, não perde tempo a analisar e a ponderar sintomas, vai directo ao diagnóstico e à medicação.

- Não despender qualquer energia a ser simpático, com conversinhas, sugestões, sorrisos e demais salamaleques, quando a antipatia é sequinha e faz o mesmo em menos tempo, sem gerar equívocos. Uma sociedade quer-se despachada, não simpática.

- Nunca colocar os caixotes do lixo do condomínio na rua quando alguém pode fazê-lo por si.

- Nunca conter-se se tiver de escarrar, arrotar, tirar macacos do nariz, urinar ou soltar um traque em locais públicos, povoados ou não. O SNS aconselha e a sua entidade empregadora (se a tiver) agradece.

- Adquirir um automóvel ostensivamente grande de forma a ocupar o maior espaço possível na estrada e no estacionamento. Tal representa um desencorajamento ao uso da viatura por parte de um vasto número de automobilistas, que passará a dispor de uma área menor de circulação, a não conseguir passar em certas ruas, a ter medo de levar uma passa de um SUV com vidros opacos e pára-choques sobredimensionados ou a sentir vergonha por não possuir um veículo igualmente volumoso.


Ilustração: Frank Chimero

7.9.11

Suburban sexy 22




Especial Ilha Terceira.

Vem sempre a propósito


A Ana enviou-me esta imagem, e eu lembrei-me de uma citação de Edward Abbey:

"Growth for the sake of growth is the ideology of the cancer cell."

Correu mesmo mal, não correu?

Speechless


Ilustração: Olly Moss

A comunicação possível


Dentro da categoria dos dejectos humanos há uma subcoisa que corresponderá mais ao menos à antropoformização da seborreia e do odor da estiva. Estas formas de vida cuja evolução intelectual sofreu os efeitos de muitos anos de consanguinidade e de um cruzamento genético com sobras de tripa e aparas de chispe, movimenta-se pelas cidades entre sarjetas, buracos, esquinas e aterros, muitos deles fujidos a um mais que provável fim na incineradora ou nas traseiras de um camião da DHURS. É quando se esgueiram para a cidade acoplados a automóveis em avançado estado de decomposição, que os completam e definem, em simbiótico atentanto ao meio ambiente, à invenção da roda e ao gajo que planeou a Criação. A única capacidade cognitiva manifestada é uma tendência compulsiva para vocalizar insultos, evocando sons do curral, dirigidos a transeuntes ou automobilistas homens que se despedem de um amigo com dois beijos, acompanhados por um olhar desafiante onde se percebe com dificuldade alguma forma de raciocínio mas se revela a preponderante postura raivosa de um pit bull com pila de pincher. Infelizmente, porém, não é permitido por lei o abate público desta vermícula desproporcionada, pelo que fica comprometido o recurso a caçadeira de canos cerrados, tacos de baseball ou mesmo espetos em alumínio, apesar da justificável função social. Enquanto se espera um decreto que imponha uma fumigação massiva, contribuindo desse modo para a normalização das contas e da higiene públicas, a coabitação é inevitável.

Que saudável regresso de férias, à urbe e sua diversificada fauna, onde o vírus da estupidez, sob a forma de preconceito, discriminação e ofensa continua a fazer vítimas. Evolução social? Como se diz em inglês: mon cul!

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