5.1.11

O fim está próximo



Isto é o que acontece a quem lê a Bíblia com tanta ilusão (à espanhola). Se chegares ao final dão-te cupões para aulas de auto-mumificação e para ires às compras nas sex shops do Barreiro com as travecas do Mister Gay. É uma forma de te preparares para o Armagedão, que, perante esta visão tenebrosa, até é uma coisa bem vinda. A Lady Gaga - cuja única similitude com "lady" deve ser o nome de caniche, como a do outro senhor, que é mais velhinha e já se roça menos nas bocas de incêndio - também lá está porque a Bíblia dela, para além de grossa, tem capa dura, o que lhe faz muita ilusão (igualmente à espanhola). E antes que eu arda no inferno, o que há-de ser menos castigador do que assistir à invasão do planeta pelas nalgas da Gaga, tenho de dizer que esta gaja desperta em mim a javardice latente. Chiça, que é mais porca que a Popota.

Hard copy 29

Epitáfio



Não posso negar a solicitude e a simpatia consistentes. Gostaria de poder fazê-lo, mas são inegáveis. Por essa nesga de amizade espreitaria um qualquer interesse de ocasião, uma condescendência com bom motivo?... Alguma coisa viveu aí, ou estava morta na praia desde o início, com uma paisagem de fundo agradável? A honestidade provavelmente não é o teu forte. Não sei, posso apenas especular, e que não haja dúvidas que me deixaste quilómetros de especulação pela frente. A frontalidade e a coragem, não, seguramente não são. Determinação não equivale a coragem. E também não me parece que o oportunismo seja uma das faces do desespero. Há outras manifestações bem mais merecedoras de compreensão. E se porventura te ocorre que o silêncio é esclarecedor, bem, será para quem não deve nem teme. Mas ambos sabemos, meu amigo, que não é o caso. Silêncio desastrado e indolente não passa de ruído malcriado, de vizinho ressabiado do andar de cima. Quem quer ser elegante não sai de cena batendo em tachos e panelas a anunciar ao mundo que lhe beliscaram os sentimentos. Ganha um par deles e resolve as situações, para bem ou para mal. Mas resolve. Esta pequena catarse é o meu número de circo, mas, francamente, antes um número de circo numa arena com público do que um gajo que espreita pela nesga para ver se lhe convém sair.

4.1.11

Saber o que fazer com a vida



Um para guardar bem junto ao coração. O ano começou bem.

Zero por centos


Mais um árduo dia de trabalho na Assembleia da República (simulação perfeitamente plausível):

- Senhor deputado, tenho de resto a apontar que o PIB em Portugal aumentou 13,6%, traduzido em 19.698 milhões de euros, o que revela uma notável capacidade de produção, mitigada apenas por um contexto internacional de estagnação com consequências graves na nossa economia!

(...)

- O que o senhor deputado não diz é que entre 2004 e 2009 a dívida externa líquida cresceu 78,6%, para 72.484 milhões de euros, ou seja, 3,7% mais, passando de 64% do PIB para 108,6% do PIB em 2010, senhor deputado!

(...)

- O que a oposição se recusa a reconhecer é que a generalidade da dívida externa foi contraída para investimentos e corresponde a activos determinantes para gerar riqueza e bem-estar dos cidadãos ao nível da saúde, educação, segurança, mobilidade, etc. Deduzindo os activos financeiros, tal como refere o Banco de Portugal no seu Boletim de Setembro de 2009, no quadro A.3.2, a Dívida Externa Líquida é de 134.327 mil milhões, e não os 182.833 mil milhões de euros que o senhor deputado referiu!

(...)

- Senhor deputado, senhor deputado, entre 2006 e 2009 o valor de dividendos e lucros de investimentos directos feitos por estrangeiros em Portugal, transferidos para o estrangeiro, contabilizaram 10.318,1 milhões de euros. Durante esse período a Dívida Bruta Externa Portuguesa aumentou 48.663 milhões de euros e a Dívida Líquida Externa cresceu 38.855,6 milhões de euros!

(...)

- Os senhores deputados não sabem interpretar os índices estruturais, caso contrário verificariam que a taxa de emprego global é superior à da Espanha, uma das mais elevadas médias da UE27, com 65,9%, e da Zona Euro, com 67,3%. Apesar da crise internacional, a taxa de emprego em Portugal aumentou 0,4 pontos percentuais em 2008, relativamente a 2007, com uma variação de 0,3% na zona Euro e 0,5% na UE27. Saliente-se ainda o facto de Portugal ter já ultrapassado as metas definidas para 2010 para a taxa de emprego feminino, com 62,5%, sendo a meta da União Europeia de 60%, e para a taxa de emprego dos mais idosos, com 50,8%, quando a meta da União Europeia é de 50%!

(...)

- O senhor deputado só pode estar a brincar! Omite convenientemente todos os principais indicadores económicos, como os Balanços Correntes e de Capital, o Défice das Administrações Públicas em Percentagem do PIB e a Taxa de Inflação, claro. O senhor deputado sabe, por exemplo, que, este ano, as taxas de variação homóloga dos índices de emprego e de horas trabalhadas ajustadas dos efeitos de calendário, situaram-se ambas em menos 0,1%, uma taxa superior em 1,6 pontos percentuais à observada em Outubro, enquanto a do índice de remunerações foi de menos 0,3%?


(...)

- As variações homólogas negativas só por si não explicam nada, senhor deputado, essa é uma postura falaciosa e a sua uma retórica enganosa!

(...)

E depois foram todos almoçar.

3.1.11

Suburban sexy 21


Mais suburban, muito menos sexy.

23.12.10

Coisas que gostaria de ter dito 10



"A little rudeness and disrespect can elevate a meaningless interaction to a battle of wills and add drama to an otherwise dull day."

Bill Watterson

Hard copy 28 - Especial Natal
















21.12.10

A hora do Goucha


Deixem o gajo em paz. Ele é estridente, vaidoso, o melhor amigo do sopeiral e há dúzias de razões para não o gramar. Mas o não tão simples facto de se ter assumido publicamente como homossexual, reconhecendo o companheiro, camarada, palhaço, amigo, merece o mínimo de respeito. Fê-lo, é certo, sem nomear essa palavra pernilonga e de sibilante reputação, e adicionando a santa mãezinha ao topo dos bookmarks afectivos. Mas não estava confortável a viver no armário perante o seu público e fê-lo. O que me parece de profundo mau gosto é os bazarocos do 5 Para a Meia Noite, esse programa tão jovem e impertinente, chamarem-lhe "apresentadora" porque... hum... deixa lá ver... é gay (excitação!) e a irreverência tem poluções nocturnas? Quanta inteligência e sentido de oportunidade, quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo é servido no cardápio legislativo como bandeira de progresso social. No qual só os turistas acreditam, visto que a mesma adolescência cavernícola que dita os nossos costumes é bem exemplificada por este tipo de graça fina. Mas pior do que isto - de onde não há muito a esperar, seja como for - é ver Herman a fazer o mesmo. Ele que, antes de ser a tia de todos os humoristas, foi um grande cómico. Se isto não é um oxímoro, então não sei o que é.

20.12.10

Isto & Aquilo




Pyongyang é o retrato de uma cidade fundada na alienação, na mentira e no medo mais profundos, e, por extensão, de uma sociedade num isolamento inconcebível, escravizada ao poder, que não se vê e não se ouve. O espantoso é que Guy Deslile, desenhador e animador canadiano que se deslocou à Coreia do Norte para orientar um trabalho de replicação de layouts franceses (ao serviço, portanto, dos demónios capitalistas), consegue pintar um quadro humano, bem-disposto e terno, caracterizando ao mesmo tempo e com notável precisão o cinzento vazio que o rodeia. Percebe-se que Deslile teve muito por onde pegar, nos dois meses que passou na capital norte-coreana, e percebe-se também que tentou combater os sentimentos de desolação e isolamento com um diário dos seus dias, sendo fácil cair numa descrição taciturna. Não é o caso, de forma alguma, oferecendo-nos o autor uma experiência rica em informação, no epicentro de uma realidade tétrica, praticamente desconhecida.

Tenho de agradecer ao meu pai a descoberta destas coisas, caso contrário... Existem edições em francês (L'Association) e em inglês (Jonathan Cape - Random House).

16.12.10

Gaguez espiritual


João - "Esta proposta parece-me melhor do que a anterior."
Gonçalo - "Mas, sim, não... Também."

De mal a pior




A Fnac deu-me um enorme manancial de experiências, boas e más. Quando lá estava tinha uma vaga noção do que era ser explorado e ganhar pouco. Ainda não se tinha cristalizado na minha mente esse pressuposto estruturante do consciente colectivo. Um lugar-comum muitas vezes inadequado, por sinal.
A delimitação das minhas funções não era clara e, talvez por isso, talvez por excesso de solicitude, acabei por aplicar tudo o que sabia e o que tive de saber para desempenhar uma multiplicitude de funções, transversais a vários departamentos. Não me queixava disso, queixava-me de outras coisas, que não se prendiam com o que fazia, variado e aliciante, é certo, mas com a naturalidade com que as exigências me eram colocadas, quer em termos de disponibilidade horária, resistência física e psicológica, quer em termos da amplitude das minhas capacidades profissionais. Essas exigências, claro está, eram unilaterais e pautavam-se pela ausência do critério que tinha de ser usado, e espremido até à última gota de viabilidade, pelo departamento em que me integrava, já então dotado de parcos recursos. Trilhado este caminho, que resultou numa previsível, frequente e, ao que parece, conveniente rotatividade, a Fnac, como tantas outras empresas à boleia dos míticos planos de contingência, pôs-se a despachar os que foram ficando, e que entretanto atingiram um tecto salarial incómodo. Encarando, possivelmente, determinadas funções como de somenos importância (sobretudo quando o mercado é muito pouco exigente e a concorrência inexistente), começou a recrutar estagiários em barda para as desempenhar, numa concentração olímpica de requisitos e conhecimentos, de modo a manter em funcionamento a linha de montagem já implementada.
Sempre achei e defendi, sem resultados práticos, que o nosso era um trabalho especializado e exigente. Fazia-o por mim e por outros como eu, incluindo os estagiários não remunerados da altura, que assistiam os departamentos de Marketing e Acção Cultural.
Hoje, a épica estupidez da Fnac consiste na negação mais revoltante de tudo aquilo que apregoou durante anos, para fazer reluzir a sua imagem de marca: a promoção da cultura e do lazer, no que tem de diverso, diferente e abrangente. Porque a total falta de respeito pelas múltiplas áreas de conhecimento que presume abarcar, e, consequentemente, por todo e qualquer indivíduo que se movimente à margem dos universos de controlo e gestão, contabilidade e clientelização, é o traço mais evidente na sua "política" corrente de contratação. O que se exige num anúncio deste tipo (exemplar de uma larga família) é obsceno para aquilo que se dá. E mesmo que a retribuição fosse outra, continuaria a ser chocante. Falo com conhecimento de causa. Há um limite para as horas que damos, a velocidade com que produzimos, os instrumentos que dominamos e as pressões que sofremos. Chama-se saúde, dá imenso jeito a quem a possui, e não há "experiência" nem currículo que justifique perdê-la.
A Fnac, para mim, incorpora e, pior, manifesta desabridamente todas as marcas da decadência moral responsável pela morte inevitável da ética profissional.
Não é caso único, infelizmente, mas, para o tipo de empresa que é, talvez seja paradigmático. E porque lá trabalhei, e até cheguei a acreditar naquilo tudo, as entranhas remexem-se-me ainda mais.

14.12.10

Scrabble days



É evidente que os meus dias de Scrabble espelham um estado de alma impenitente, que se recusa a prescindir do esforço de concentração e da tensão competitiva. É-me quase impossível encarar um acto de lazer simplesmente como tal, e o resultado tem de ser acima das expectativas, que, teimosamente, são altas. É que eu não ganho, é raro ganhar ao jogo, seja ele qual for. Mas insisto em provar a mim e aos outros que um jogo é para vencer, com garra e com drama, com supremacia e vaidade. Excepto quando se desiste, porque a coisa não está a correr bem. E isso, enquanto reflexo inverso de um quotidiano viciado na obstinação, é uma coisa boa. Porque a vida real é alérgica à desistência, mas num jogo podes saboreá-la sem desonra.

Ilustração: Martin Jarrie

13.12.10

Coisas que gostaria de ter dito 9



"Aqueles que se calam e baixam a cabeça, morrem de cada vez que o fazem. Os que falam alto e caminham com a cabeça erguida, morrem apenas uma vez."

Giovanni Falcone

Hard copy 27


Este anúncio é bestial, não só pela vetusta (e perversa) naturalidade com que afirma tal palermice, mas também pela presença ominosa do avô de Chucky na imagem principal. Pérola.

10.12.10

Cheira a Oscar
















Hard copy 26



Ficamos portanto avisados que o leite "Digest" não é para meninas (apesar da imagem enganadora) porque arrepanha a tripa. Enfim. Não basta não saber escrever, também é preciso ser-se estúpido.

Arquivo do blogue